Presidente do Uruguai promete dar a relatório que critica despenalização das drogas tanta atenção quanto potências, garante que país vai mostrar caminho correto e ironiza 'uso medicinal' nos EUA

por Redação RBA

IVÁN FRANCO/EFE
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Mujica considera que medida do Uruguai pode ter assustado Jife, mas provará ser acertada
São Paulo – O presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, lamentou hoje (6) as críticas da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), que em seu relatório anual critica a legalização da produção e da venda da maconha, aprovada e implementada no país sul-americano no ano passado.
"Vamos ganhar esse jogo. Vamos mostrar qual é o caminho das reformas", afirmou Mujica justamente depois de receber um prêmio da Associação Latino-Americana para os Direitos Humanos (Aldhu) em reconhecimento às reformas na legislação em relação a maconha, casamento homoafetivo e aborto. A Jife, vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), avaliou esta semana que a despenalização do consumo e da comercialização de cannabis pelo Uruguai é perigosa e coloca em risco a saúde pública.
"A ONU, que é tão velha, está puxando a nossa orelha. E vamos dar tanta bola para isso como dão as grandes potências quando tomam suas decisões", respondeu o presidente, famoso pelo estilo direto de suas afirmações. “A Jife está longe. Nem se lembra. Aqui temos de nos entender entre nós. Não têm ideia do que é a sociedade uruguaia nem do que são as tradições do Uruguai.”
O Uruguai legalizou a compra e venda e cultivo da maconha em 10 de dezembro do ano passado, com a aprovação no Senado do projeto legislativo, que, atualmente, se encontra em fase de regulamentação. A plantação e a comercialização serão regulados pelo Estado, na tentativa de evitar que se formem grupos econômicos poderosos em torno deste segmento. "Somos um país pequeno e eles se assustam. Mas me assusta mais que levemos 100 anos reprimindo e ficarmos pior, multiplicando a riqueza que vai parar na mão dos grandes, enquanto os povos e a juventude se desfazem."

A visão da Jife de que a legislação uruguaia "marca uma tendência perigosa" se baseia na Convenção Única sobre Entorpecentes, de 1961, que prevê o uso da cannabis exclusivamente para fins médicos e científicos, e não recreativos. É o mesmo tratado internacional que considera que a mastigação de folhas de coca, um hábito milenar nos Andes sul-americanos, é uma infração, o que tem sido alvo de constantes críticas do presidente da Bolívia, Evo Morales, que chegou a retirar seu país do tratado para cobrar uma revisão. Essa visão foi alvo de ironia de Mujica, que recordou que o organismo internacional não se opõe ao uso de maconha nos Estados Unidos: “Há 20 estados norte-americanos que, você sabe, usam a marijuana de maneira medicinal...”
O presidente da junta, Raymond Yans, afirmou estar disposto a a "estreita cooperação" com o Uruguai para abordar sua lei de legalização do cannabis. O relatório, porém, fala em “desafortunadas iniciativas” que colocam em risco o “bem-estar da sociedade”.

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