Ditadura Ativo x Passivo

Ditadura Ativo x Passivo

Engraçado como, mesmo após tantos marcos sociais, históricos e culturais, ainda nos vemos atados aos arcaicos papeis familiares da típica família burguesa. Numa relação, tem que se existir o ‘homem’ e a ‘mulher’.
A ideia de que é preciso ter alguém com suposto poder, que domine, que seja o esteio do relacionamento, e que, obviamente, é o parceiro entendido como mais masculino, corrobora para que ela seja legitimada, reproduzida e eternizada.
Dessa forma, o parceiro ativo, este, claro, o homem, macho, viril e forte, passa a ser entendido como melhor do que o passivo, já que nossa sociedade transmuta a diferença em desigualdade, em valores de melhor e pior, bom ou ruim.
Quando o assunto são travestis, homens e mulheres trans, bem como suas sexualidade, isso nem entra na pauta das discussões. Estes são tachados como anômalos e patológicos.
O preconceito ante as predileções individuais está estampado nos espaços sociais. Na boate, reduto gay, claro, muito comum escutarmos ataques como “Olha lá a passiva louca” ou “Aquela ali está com o c* dando bote”. Expressões recheadas de ofensa, com doses cavalares de machismo e, obviamente, intolerância.
Há uma máxima de que gay tem que agir como homem. Pode ser gay, mas tem que ser macho. Dançar até o chão? Rebolar? Usar calças apertadas? Usa shortinhos? Maquiagem? Cabelo comprido? Fazer coreografia de música POP? Tudo sinais claros da “passividade”.
E olha que nem as bombadas estão imunes à essa “doença” que assola o mundo gay. Não interessa a quantidade de músculos/hormônios que o rapaz tenha. Se “deu pinta”, é passiva. Como se isso fosse algum tipo de problema.
Em Goiás, onde vivencio bem de perto essa situação, impera o machismo familiar – o qual dita que homem de verdade está para sociedade assim como o boi reprodutor está para o curral. Homem aqui aprende a ser homem na roça. Andando a cavalo, cuidando do gado, bebendo pinga e perdendo “o cabaço” no puteiro. Quanto mais xucro e sistemático, mais macho ele é.
Infelizmente, nós gays, como parte da sociedade, aprendemos e disseminamos a cultura machista em nosso próprio meio. Não bastasse o preconceito que sofremos já vindo da sociedade, somos intolerantes com nós mesmos. Prova maior disso é essa imbecilidade de que ativo é ativo e passivo é passivo. É matemática. Ativo = macho de verdade não deixa nem encostar na bunda. O negócio é meter. Passivo = efeminado, rebolativo e cheio de trejeitos. Dá mais que chuchu na cerca.
Ora, grande baboseira. Vivemos tentando nos livrar dos preconceitos mas não nos livramos de nossos próprios.
Certa vez um amigo me disse que estava muito chateado sentimentalmente. Vendo sua preocupação, prontifiquei-me a ajuda-lo. Confessou-me que não estava em uma boa fase do relacionamento, pois o namorado vinha dando sinais de que não estava tão afim de cumprir sua função de macho viril. Meu amigo, arrasado, me disse que o amado até havia dado a entender que gostaria de inverter os papéis.
Juro que na hora fiquei meio boquiaberto. Como assim? Quer dizer que, baseado nos conceitos familiares tradicionalíssimos, um homem tem que ser homem – mesmo que esse homem goste de outro homem. Macho que é macho não pode titubear. Macho não chora. Macho não tem anseios. Macho não se machuca. Macho é comedor.
Sem contar que, no que diz respeito a sexo, na busca pelo prazer do casal vale (quase) tudo. Essa bobeira de que um tem que ser ativo e o outro tem que ser passivo é o mais puro retrocesso. Deixo claro que, a este ponto, tenho consciência de que, sim, existem preferências. Mas não devemos nos ater a isso… Ser passivo não é problema. Ser ativo não é vantagem. Querer variar é natural.
Respeitar o desejo do outro faz parte da construção de um relacionamento saudável. Achar o cúmulo o parceiro que sempre assumiu o papel de “melhor”, “mais forte” e do ”homem da relação”, não cumprir com suas “obrigações sexuais” é simplesmente reduzi-lo a uma projeção dos anseios da sociedade arcaica. Da mesma maneira que tachar um gay de passivo apenas por seu maneirismo ou efeminidade equivale a disseminar o preconceito contra gays em geral.
A ex-prefeita de São Paulo, psicóloga e (agora) ativista da causa LGBT, Marta Suplicy, cunhou uma expressão histórica. Aprendamos com ela, dando ou comendo, o importante é: “relaxa e goza”.
Fonte: Gajjo

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