Ex-aluna do curso de jornalismo UFMT Araguaia lança livro em parceria com professores, retratando a realidade da mulher indígena

Livro

Agência Focaia
Reportagem
Trycia Silva

      Foto:Trycia Silva
Scharleth Martins concede autógrafos aos presentes na noite de lançamento do livro

Na Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Araguaia, ocorreu nesta sexta-feira (25), unidade Barra do Garças, o lançamento do Livro "Ser Semente: Mulheres A'Uwe, corpos políticos e solidariedade ecológica em Marãiwatsédé". A obra literária foi escrita por Scharleth Martins em conjunto com Suely Henrique de Aquino Gomes e Deyvisson Pereira da Costa.

Gomes fala sobre o processo de construção da problemática trabalhada na dissertação que resultou no livro. "A Scharleth avançando nos estudos, nós percebemos a invisibilidade das mulheres indígenas nos trabalhos acadêmicos, teses e dissertações, até na própria história. Foi uma construção bem cuidadosa e que fluiu e amadureceu no tempo devido", revela.

Deyvisson Costa afirma que o desafio primeiro foi a co-orientação, tendo que dividir com Gomes o propósito de pensar algo que não tinha proximidade, a questão das mulheres indígenas. "Trabalhar conjuntamente com a Suely e com a Scharleth para a produção da dissertação de mestrado foi um grande desafio. Em seguida foi transformar esse trabalho acadêmico com a linguagem muito específica num texto mais palatável, mais acessível para as pessoas", observa.  

"Ela (Scharleth Martins) foi orientada a produzir um trabalho na linha de mídia e cultura, ou seja, a compreensão das relações entre saber e poder implícitos na cultura, e que subjugam determinadas mulheres", conta. 

Ideia do livro 

O livro não veio imediatamente, de uma ideia, mas fruto de um trabalho de pesquisa que Scharleth Martins começou na graduação com o povo de Marãiwatsédé. A autora conta que junto com uma amiga, estudou a retomada desse território tradicional pelos indígenas, que permitiu o desdobramento dessa pesquisa.

A obra faz referência a um período conturbado no Brasil, quando a Ditadura Militar (1964-1985) apoiava a ocupação das terras da Amazônia e realizava grandes obras de infraestruturas na busca do desenvolvimento econômico capitalista. Em 1965, aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), com o apoio dos militares, retiraram à força os indígenas e os distribuíram entre outras terras do Mato Grosso. Portanto, os xavantes foram retirados de seu território tradicional em 1966 para retomar a suas terras quase cinco décadas depois.

Martins afirma, diante do fato histórico, aprofundou a leitura no tema na sua pós-graduação. E ela não havia pensado em fazer dessa pesquisa um livro. Após vários meses de trabalho, depois que a dissertação ficou pronta, ao ser avaliada pelos próprios professores, que aprovaram o trabalho, os quais fizeram a indicação para que se tornasse um livro. "Foi um arranjo que foi sendo construído. Esse final não foi planejado, produzir um livro assim", revela Martins.

"Quando você se abre para pesquisar grupo étnicos, minoria política, o compromisso que você tem que ter, de ser honesto naquilo que você se propõe, e se abrir para uma escuta que seja realmente ativa. Então acho que desencadear esse trabalho, o modo que tem sido reconhecido pela área é fruto de um engajamento em pesquisa. Ele é politicamente orientado para a abertura para a diferença", analisa Martins.

A autora revela que um trabalho acadêmico exige seriedade com as fontes, valorizando suas afirmações sobre a realidade vivida. "Não tem uma relação de autoridade entre pesquisador e sujeito pesquisado. A minha ideia é de que a pesquisa se dê de maneira mais horizontalizada", declara Martins.

Scharleth Martins comenta sobre sua experiência ao escrever o livro. "A escrita em si é algo muito doloroso, é um deslocamento pessoal muito grande. A troca com o outro, lendo junto, discutindo junto, isso me ajudou bastante a escrever".


Mulher indígena

Sobre os pontos importantes do livro, autora destaca que é preciso "pensar em uma comunicação que não se dá por meios, uma comunicação que se dá pelo pensamento, pela produção da diferença. O livro aborda uma questão que nos toca muito, todas nós mulheres. Uma das perguntas de fundo é, será que a dominação masculina ela é universal?", questiona.

A pesquisa, como observa Martins, um dos pontos importantes foi reconhecer a força da mulher indígena, exigindo atenção na forma de dialogar com elas. Como analisa, as mulheres do povo de Marãiwatsédé. 

"Nesse arranjo todo de violência, que elas foram retiradas do seu território, que estão ocupando uma área fortemente desmatada, elas são criativas, elas estão reinventando a si mesmas. Construindo outras relações com o seu território, com esses homens indígenas, conosco, nos provocando a pensar e as respeita-las", resume Martins.

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