Criado por Letícia Castro em 
 em 26/06/2011

Como você usa a internet? Para quais fins? Seja para informar-se, utilizar serviços, fazer compras ou até mesmo trabalhar, o que você realmente faz no mundo online é comunicar-se. Ligar uma ponta a outra, diminuir a distância entre dois pontos – exatamente como fez o telefone quando revolucionou a comunicação entre os homens ainda nos tempos da Rainha Vitória – a internet é, em sua mais pura essência, um aparelho de comunicação. E por que “aparelho” e não “meio”? Porque a internet, se bem seja um armazenador de dados “etéreos” (a famosa “nuvem”), começa a partir de um dispositivo físico, que é o seu computador mesmo, aquele para o qual você reserva um local de destaque em sua casa ou carrega para todos os cantos, tal qual o documento de identidade.

Se compararmos a tecnologia necessária para transmitir mensagens por telefone e pela web, por exemplo, vamos constatar que o processo é o mesmo: é preciso que exista uma rede de fibra ótica que cobre tanto as ligações telefônicas, como oferece banda larga para disponibilizar o acesso à internet. Sob este ponto de vista, poderíamos dizer que a internet nada mais é que um outro “aparelho” disponibilizador de comunicação.

Mas, a internet também coleta e armazena dados. É uma grande biblioteca do que quer que se insira nela. Todos os dias, bilhões de pessoas ao redor do mundo alimentam a rede com dados, que chegam nos mais variados formatos, como textos, imagens, arquivos de áudio e de vídeo. Dentro dessa miríade de conteúdos sem-fim, a internet também tem mecanismos para organizar e apresentar este material (e para isso, existem os motores de busca como o Google, Bing, etc.) para torná-lo encontrável e acessível aos usuários do sistema. Não fosse este derivativo intrínseco em seu formato e a web toda perderia a razão de ser por simplesmente também oferecer um – hoje, mero – serviço praticamente igual ao telefônico.






O grande diferencial da comunicação online está justamente em sua operacionalidade, ou seja, a internet, antes mesmo de promover a interação entre usuários, precisa que o seu utilizador interaja, em primeira instância, com o próprio veículo. E não no sentido de operar a máquina, mas no que diz respeito à alimentá-la, criá-la, desenvolvê-la constantemente e depois, compartilhá-la (atenção para o termo) com os demais. A rede é uma extensão do usuário, assim como o lápis é a extensão da mão quando tira dela a mágica de desenhar as palavras que vão transmitir o mundo através da linguagem escrita. E o usuário, sem a rede, é um ser desprovido de paramentação para transmitir a sua mensagem. São duas entidades, únicas, que necessitam uma da outra para sobreviver.

Essencialmente, este é o conjunto das coisas que possibilitam a existência do meio online. Portanto, quando você ouvir – novamente – alguém dizer que “Fulano não sai do computador”, “Cicrano fica o dia inteiro no computador”, saberá que é a mais pura verdade: o usuário é absorvido pelo sistema, assim como o sistema não subsiste sem o utilizador. E aí inauguramos a discussão sobre o real e o virtual.




Ao interagir com a máquina e alimentar a rede – a web – o ser humano literalmente “entra” no sistema, projeta-se para dentro de um universo diferente daquele onde o seu corpo físico está. A sua mente penetra no meio virtual e, para dar corpo a esta entidade abstrata, ele precisa de algo que o represente e o identifique, uma cara, uma forma, um corpo, um avatar. E é aí onde a coisa se confunde e, ao mesmo tempo, se expande de uma forma inconcebível e impossível na vida real. O avatar pode ser absolutamente tudo o que a mente humana permitir, desde a sua aparência até a sua biografia.

Os limites éticos, morais e todos os tipos de valores são reinventados dentro de um ambiente que permite reinventar-se para que estes mesmos códigos de convivência se adaptem ao seu bel prazer. A própria “sociedade virtual” é reinventada todos os dias de acordo com a amplitude da criatividade humana, fonte inesgotável de criação. As consequências e desdobramentos óbvios de uma circunstância tão única já estampam as capas de jornais e vem preocupando psicólogos, sociólogos e especialistas em comportamento humano, além dos próprios agentes reguladores da ordem social (como os legisladores e a polícia) há tempos e as discussões parecem infinitas.

Por que o ser humano adota na internet um padrão de comportamento tão alheio aquele que pratica na vida real? Porque o meio permite? Quem está por trás da máquina? Quem alimenta o sistema e cria essa balbúrdia, cuja organização é um desafio diário, na web? Não são os mesmos bilhares de homens e mulheres que organizam a sociedade mundial aqui do lado de fora do computador?

Você está interagindo apenas com uma máquina? Sim e não. Sim, você está interagindo com uma rede capilar que se auto-organiza e decide quem e como terá acesso a você e a sua produção online. Um simples tweet, avisando que você não foi à escola porque não estava afim de assistir a aula daquele “professor chato” pode, em questão de segundos, bater justamente na timeline do docente que não faz parte da sua rede de followers. E o que era apenas um pequeno desabafo virtual se torna uma “saia-justa” da vida real, com a cabível repercussão que pode fomentar. Os universos se confundem, os mundos colidem e, se você está incluído digitalmente, não há como escapar.




A discussão entre virtual x real já não é tão estreante. A questão é que o meio se presta a um tipo de interatividade que está em constante movimento e a dinâmica é tão rápida quanto à velocidade do próprio pensamento. A internet é tão “possessão e cria” do próprio pensamento humano que eu te proponho fazer um teste. Se você é usuário regular e frequente da internet, experimente cronometrar o tempo que levaria para escrever uma frase de qualquer tamanho no teclado do seu computador e com as mãos, de forma cursiva. Eu já fiz o teste e me assustei ao perceber que digito muito mais rapidamente do que escrevo no papel. É porque o meu cérebro está muito mais alinhado e absorvido pela técnica e abstração da interatividade online como jamais esteve com o papel. O homem, em toda a sua produção de linguagem escrita, jamais se envolveu tão profundamente com a pena como se amalgamou ao teclado e à tela do computador. E daí, nasceu a portabilidade. Entendeu agora?

Se quiser refletir, assim como milhares de especialistas da atualidade estão sendo desafiados a fazer ao redor do mundo, pergunte-se por que você age tão diferentemente quando está em forma de avatar. É porque se sente munido de super-poderes? Você os tem realmente? Será que você não os tem mesmo? Para que se presta este meio? O que você tem ou não coragem de fazer na internet que jamais faria na vida real? Quem domina quem? Será que existe essa sobreposição entre o homem e a web ou é uma parceria que está condenada a se misturar cada vez mais?

Antes de escrever o próximo post no Facebook ou lançar o próximo tweet, pense: como eu quero me representar dentro deste espaço? Você perceberá que as fachadas que criamos no mundo virtual tendem a ter duração mais longa que as máscaras que vestimos socialmente, mas também tendem a ruir. Se quer alcançar credibilidade e conseguir que a sua voz seja ouvida na internet, lembre-se de que a comunicação online é feita em cima dos mesmos pilares que sustentam a sociedade: verdade, autenticidade e respeito pelo outro devem estar em primeiro lugar. Afinal, ainda não nos transformamos em hologramas teletransportáveis que se esfumaçam pelo ar ao menor sinal de problema. Se existe algum conselho a compartilhar sobre um tema em constante mutação, talvez seria este: seja você mesmo, de verdade, e o seu pedacinho de internet, o seu “terreno virtual” estará garantido.

Imagens: Creative Commons Search, Livson DeviantArt

Fonte: babelpontocom

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