Graduação em Jornalismo do Araguaia proporciona inovações na comunicação regional, mas imprensa prefere o tradicional

Comunicação


Sara Ribeiro

Marcos Antônio

 

Com a abertura da graduação em jornalismo em 2009, na Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Araguaia (UFMT/CUA), a cidade de Barra do Garças avançou e aperfeiçoou seus profissionais da área jornalística para a produção midiática na região do Médio Araguaia.

O curso de graduação, inicialmente comunicação social, habilitação Jornalismo, surgiu com incentivo dos profissionais da imprensa local da época, avaliando a necessidade de qualificação profissional na região. Como resposta, o então pró-reitor da Universidade, na gestão de José Pessoa, iniciou movimento para sua implantação no campus da UFMT Araguaia.


A estudante da primeira turma de Jornalismo da UMFT/CUA de 2012, Mirian Lellis relembra 

que colegas saíram da universidade aprovados em estágio para jornal Folha de São Paulo e 

site G1 - Imagem: Arquivo Focaia.


Após a sua aprovação, o corpo docente do curso de letras recebeu a incumbência para a implantação de projeto pedagógico, com definição de sua especificidade, como organização de professores e grade curricular. 

Adenil da Costa Claro e Odorico Ferreira Cardoso Neto assumiram a liderança do projeto, por não haver naquele momento docentes formados em jornalismo na instituição do Araguaia.

 

O novo curso de graduação passaria a ter estruturas teóricas vindas da licenciatura em letras, com um viés mais conceitual e, portanto, sem ênfase nas práticas jornalísticas.

 

O professor de jornalismo da UFMT/CUA, Jorge Arlan de Oliveira Pereira, que chegou ao Campus alguns anos depois da implantação do curso de Jornalismo, afirma que “as primeiras turmas sentiram bastante essa deficiência da estrutura laboratorial e de recursos, como computadores avançados, máquinas fotográficas e câmeras, mas tudo foi se estruturando aos poucos,” afirma.

 

Embora, a graduação ainda não possua a estrutura ideal, conforme analisa Arlan, hoje há equipamentos que atendem às atividades práticas, as salas e os laboratórios têm bom tamanho e dimensão, que atendem às atividades práticas voltadas para televisão, rádio, internet, impresso.

 

“Além das questões técnicas, vejo também o aperfeiçoamento dos professores. Daqui a poucos anos, o nosso quadro efetivo de professores terá apenas doutores. e isso é sinal de investimento e qualificação profissional. Os projetos de ensino, pesquisa e extensão estão se estruturando e ganhando destaque, reconhecimento e premiações, “destaca Arlan.

 

Implantação

 

Como o corpo docente do curso de Jornalismo inicialmente era composto por educadores do curso de letras, no ano de 2013 foram realizadas as primeiras contratações docentes para a área destinada à graduação, por meio de concurso público.

 

Anos depois foi realizado um segundo concurso para a chegada de quatro docentes com formação em Jornalismo. Ainda ocorreu um terceiro certame para uma vaga, somando neste período a chegada de oito docentes, com formação específica na área, além da manutenção de professores do quadro do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), com destaque para educadores do curso de origem, Letras e educação.

 

O curso também conta com professores substitutos, “que tem participação efetiva na vida do curso, dando uma grande contribuição”, e os técnicos Neemias Alves e Cristiano Costa que foram contratados há três anos. “Eles dão condição para que as disciplinas tenham uma dimensão mais materializada”, pontua Arlan, responsáveis pela atividade nos laboratórios da graduação.

 

O professor de Jornalismo da UFMT/CUA, Edson Spenthof, relata que “em termos de conteúdo e da relação em sala de aula, os alunos do Araguaia recebem, por isso dizer, o mesmo ensino, às vezes até superior a diversos cursos privados Brasil afora”.

 

Como destaca Spenthof, “os nossos egressos saem daqui preparados para atuar em qualquer parte do Brasil e fazer mestrado e doutorado, como temos visto”.

 

Egressos no mercado

 

 Professores Alfredo Costa (no fundo à esquerda) Patrícia Kolling (mais à frente), ao lado de 
estudantes durante participação em evento de Jornalismo em 2012, realizado em Mato 
Grosso do Sul. Imagem: Mirian Barreto.

 

A primeira turma de jornalistas recebe o diploma em 2012, quando chegaram ao final dos quatro anos. Como destaca Mirian Barreto Lellis, que faz parte das atividades iniciais da graduação, a qualificação dos estudantes já no início do curso permitiu que estes egressos fossem selecionados para estágio e correspondentes para empresa de comunicação conhecidas no país, como Folha de São Paulo e G1. 

 

Ela relembra que, na “Copa de 2014 o ex-aluno Adilson China, fez a cobertura da copa para a Folha, algumas reportagens foram veiculadas nacionalmente, isso é algo que engrandece e fortalece o curso,” avalia.

 

Lellis, por sua vez preferiu entrar para o mundo da pesquisa, após concluir a graduação. Hoje é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela Universidade Federal de Mato Grosso, e está concluindo seu doutorado, na mesma área de pesquisa. Além disso, voltando às origens, se tornou docente do quadro do curso de jornalismo da UFMT Araguaia, na modalidade contrato temporário.

 

Alguns estudantes, antes mesmo de concluir a graduação já se tornaram empreendedores no mercado de mídia, como é o caso de Ester Moraes, que é proprietária, com mais duas sócias, da Agência Rede. Como afirma, sempre foi apaixonada por fotografia. “Dentro da universidade pude experimentar essa paixão com equipamentos e situações que só́ confirmaram esse desejo de fotografar”, declara Moraes.

 

O jornalista graduado pela UFMT/CUA, Jessé Santos segue o mesmo caminho do empreendedorismo. Ele relembra que em 2018, em parceira com alguns amigos começou a “executar um coletivo de comunicação, que culminou na criação de um site de notícias e opinião, o Panorama Coletivo.” 

 

Como um idealista, afirma que assim, ganha condições para fazer o jornalismo da forma que acredita, “que deve ser, apesar de volta e meia esbarrarmos na falta de estrutura física e financeira para produzir nosso conteúdo”.

 

O curso de jornalismo da UFMT Araguaia, ao formar Jornalistas contribui para a mudança nas empresas de comunicação locais, com novos investimentos, e inserção de profissionais qualificados nas redações.

 

“Eu poderia ver isso [o empreendimento em mídia] como prejuízo, mas eu vejo como a minha contribuição ao jornalismo local, que precisa de veículos com um padrão de qualidade, que puxe os demais a fazer um jornalismo sério, mais voltado para o interesse da população do que para os interesses dos políticos, que financiam eles”, acrescenta Santos.

 

Imprensa regional

 

“Em Barra do Garças ainda há um predomínio muito grande de notícias sensacionalistas, especialmente as ligadas a crimes. A gente vê carros de imprensa dando plantão nas delegacias, esperando pelas principais fontes, mas não se vê carro de imprensa dando plantão em frente à Prefeitura, aos órgãos estaduais e federais aqui instalados, nas universidades ou em tantos outros locais que produzem notícias de muito maior relevância na vida individual e coletiva”, critica Spenthof.

 

O docente se diz também ficar surpreso “com a pouca absorção dos jornalistas egressos do nosso curso pela mídia local, embora esteja aumentando lentamente. Creio que isso se explique pela cultura e pela estrutura da mídia jornalística local”.

 

“Temos uma cidade peculiar em termos de meios de comunicação. Poucas cidades em MT possuem essa quantidade de mídia que temos aqui, [o mapeamento realizado em 2015 mostrava 10 mídias entre rádio, TV aberta e jornal impresso] para uma cidade do porte de Barra [do Garças], podemos considerar um número elevado de mídia”, porém como acrescenta, concorda que são poucas aquelas que têm em seu quadro de funcionários profissional formado em jornalismo, destaca Lellis.

 

“isso pode mostrar como o profissional da comunicação ainda possui pouco espaço e representatividade no estado,” observa.

 

O cenário de mídia na região viu reflexos com a entrada de novos jornalistas formados, mudando os aspectos da comunicação da cidade. “Vários portais de notícias passaram a cobrir a região do Araguaia, muitos utilizando correspondentes alunos ou ex-alunos do curso de Jornalismo,” conclui Mirian Lellis.

 

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