Pesquisa destaca epidemia de violência contra professores no ensino básico brasileiro, aponta as razões e possíveis soluções

Educação 

Francisco Lucidio  

 

Motivado pela negligência do Estado e a precarização do trabalho dos docentes, grupo de pesquisadores realizam estudo com análise sobre as “Razões da epidemia de violência contra professores e professoras do ensino básico brasileiro.” O trabalho relaciona todos os estados brasileiros, com foco nas opressões educacionais, não somente físicas, mas as invisíveis, pelo fato de estarem inseridas em problemas estruturais do setor. 

 

O trabalho é realizado pelo grupo Observatório do Estado Social Brasileiro na avaliação do cenário educacional a partir de análises acerca da violência no ambiente escolar, do qual faz parte cerca de 2,5 milhões de docentes e 47 milhões de alunos, com suas práticas cotidianas. A pesquisa tem como base informações fornecidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) que envolve o período entre os anos 2015 e 2024.

 

O professor do curso de geografia da Universidade Federal do Mato Grosso, Campus Araguaia (UFMT-CUA), Magno Emerson Barbosa, é um dos participantes do projeto que reúne outros 20 pesquisadores de diferentes lugares do país.


 

De acordo com a pesquisa, as mulheres são as que mais sofrem com a violência no ambiente
escolar - imagem reprodução.


 

 

De acordo com Barbosa, entre os fatores levantados na pesquisa estão um sistema com prioridade à competitividade e na falta de amparo para alunos que precisam de apoio especializado, como alunos PcD (Pessoa com Deficiência) e do espectro autista.

 

Soma-se a isso a reduzida autonomia didática dos professores, infraestrutura inadequada, baixa remuneração, falta de perspectiva de atuação, com poucas ou nenhuma vaga para professores em concursos públicos, além das altas cargas horárias para as atividades escolares. Pontos que levam ao adoecimento dos educadores e a precarização da profissão, destaca o docente.

 

“Percebemos escolas com níveis muito precários de infraestrutura, escolas que não oferecem conforto térmico para estudantes. Muitas escolas não têm climatizações devidas para o estudante desenvolver um bom contexto com o processo de ensino e aprendizagem.”

 

Quanto à remuneração dos docentes, como descreve o pesquisador, “em muitos casos não atingem nem mesmo o piso salarial previsto por lei aos professores. Então, muitos desses são obrigados a trabalhar em várias instituições escolares para ter uma complementação de renda mais adequada às suas demandas. O que têm basicamente agravado a precarização da prática profissional desses professores.”

 

Desigualdade de gênero

 

Um fenômeno analisado pelos pesquisadores está vinculado ao próprio processo histórico das desigualdades, especialmente da desigualdade de gênero, cujo perfil docente no Brasil é predominantemente formado por mulheres.

 

De acordo com o professor, as mulheres negras e periféricas são o perfil submetido com mais vigor a essas violências. “Podemos dizer que o perfil que corresponde à vulnerabilidade é o mesmo perfil que correspondem às dificuldades no Brasil, que são sujeitos pobres, periféricos, negros. Um grande número que compõe, basicamente, o perfil docente no Brasil.”

 

Barbosa ressalta que por outro lado existem escolas com bons desempenhos, com infraestrutura modernas, avançadas e que recebem maior atenção do poder público.

 

“Especialmente no que diz respeito às instituições federais, educação básica, nós temos um exemplo muito exitoso, que são os institutos federais. Com médias de desempenho superiores a países como Coreia do Sul, em áreas como, por exemplo, ciências. Então, nós temos, sim, casos exitosos. Nós sabemos os caminhos das pedras para se atingir melhores indicadores, melhores processos de desenvolvimento e capacitar os estudantes. Mas isso requer vontade política, isso requer investimento, isso requer trabalho e envolvimento social", afirma Barbosa.

 

Caminhos para a educação

 

Mitigar essa violência contra os docentes no Brasil não parece uma solução fácil. Como descreve o pesquisador, o Brasil tem proporções continentais. Assim, pensar em soluções e receituários fixos, diante de uma vastidão territorial, seria basicamente um erro.

 

No entanto, o pesquisador avalia que um dos pontos fundamentais na redução da violência passa pela melhoria das condições de infraestrutura, reconhecimento profissional e ajustes salariais, como formas de atenuar a situação preocupante atual dos professores.

 

Atuando nessas perspectivas já demarcaria o início de um planejamento para condições de melhora da educação nacional, como consequência a redução da violência tanto explícita, quanto implícita, apontada pela pesquisa.

 

“Precisamos, então, de vontade política, de investimento e de coragem para atuar nisso,” conclui Barbosa.