Entrevista com Luciano Martins Costa
Por Rennan Martins
As manifestações de ontem (15) arregimentaram milhares de indignados. Com a camisa da corruptíssima CBF, estes cidadãos se juntaram pra provar a enorme capacidade de mobilização da narrativa hegemônica, e com suas palavras de ordem reforçar o status quo.
Globo News fez cobertura cinematográfica dos eventos enquanto seus diversos comentaristas assumiam a condição de porta-vozes da “festa cívica” cobrando atitudes do governo. Por volta das 15:00 anunciaram 240.000 pessoas na Avenida Paulista. Antes das 15:30 já eram 480.000 e faltando alguns minutos pras 16:00 a marca alcançou sensacionais 1 milhão. Além da enorme diferença de projeção em relação a Folha, que calculou 210.000 revoltados, a Globo ainda precisa explicar como 750.000 pessoas desafiaram a física chegando ao mesmo tempo nas redondezas do evento.
Ironias e críticas à parte, a realidade é que a imprensa corporativa intervém decisivamente na sociedade e instituições. A opinião pública(da), quando concentrada nas mãos de um cartel, possui grande poder de agendar e interditar debates ao gosto do dono da editoria. Esta distorção gera efeitos deletérios no processo democrático e de tomada de decisões.
A fim de analisar a fundo essa questão o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou o experiente o jornalista, escritor e colunista do Observatório da Imprensa, Luciano Martins Costa. Nos explica ele que desde a redemocratização a imprensa nacional entrou num processo de oligopolização incentivado pela distribuição de concessões a caciques políticos do centrão. Segundo Luciano, este cartel constrói um simulacro de realidade que estimula os cidadãos menos críticos a assumir posições conservadoras e raivosas. O “remédio” então seria “aprender a ler” a mídia, duvidando sistematicamente das notícias, principalmente das apresentadas com mais alarde e dramatização.
Confira a íntegra 
Leia o comentário de Nilson Lage a respeito da entrevista:
Essa entrevista do Luciano é documento-chave para se entender o que se passa na mídia brasileira, a começar pela resposta à primeira pergunta:

"Existe uma cartelização editorial desde que a Folha de S. Paulo negociou seu maior comprometimento com a Associação Nacional de Jornais em troca de apoio para a campanha pelo fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista e pela extinção da Lei de Imprensa."

O voluntarismo do jovem proprietário, que odiava ser réu em ações judiciais e mantinha uma disputa com os sindicatos de jornalistas (desde que entregou a pessoas de seu círculo de amizade cargos de chefia na redação da Folha e demitiu, de uma vez, todos os revisores, fatos do início dos anos 1980), foi, assim, o atrator aleatório na construção dessa monotemática da imprensa.

O que restara da ditadura, liquidados outros grandes formadores de opinião - da Última Hora ao Correio da Manhã, da TV Excelsior ao Diário de Notícias -, foram a Rede Globo, a parte sobrevivente dos Diários Associados (basicamente o Diário de Minas e o Correio Brasiliense), a Abril, de matriz americana, e o Estadão, ancorado em reacionarismo ancestral que o verniz liberal na época disfarçava.

A Rede Globo agigantou-se e adquiriu imbatível poder político ao associar-se aos oligarcas que, sob o regime militar ou no governo Sarney, ganharam concessões de TV. Os Associados mantiveram os vínculos regionais, principalmente em Minas. A Abril tentou realizar em São Paulo o sonho americano e, pelo visto, não se deu bem.

Nenhuma dessas empresas é modelo em termos de gestão.

A Folha era o patinho feio . Pertencia a um empresário ligado a Ademar de Barros, que caiu em desgraça no primeiro momento do regime militar, redimiu-se dando a cobertura possível ao movimento, até que transferiu ao filho o comando da empresa; teve o cuidado de, nos primeiros anos, atribuir o controle da redação a um jornalista em que o regime confiava.

Rede Globo, Associados, Abril são estruturas historicamente vinculadas aos interesses americanos e diretamente articuladas com a Sociedade Interamericana de Imprensa, que responde ao Departamento de Estado.

Não fosse o tal comprometimento com a ANJ - braço nacional da SIP -, a Folha seria, talvez, um jornal de fato democrático, como, no fundo, seu dono gostaria. Perderia faturamento? Decerto. Mas faria história.
Não deixem de ler a entrevista,

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