Por Mario Marques em 23/12/2014 na edição 830

O poeta é um fingidor. O jornalista, um vendedor. Este vende tanto, tão completamente, que nem sente. Ou sente tarde. Jornalistas são, de fato, os melhores potenciais vendedores que você pode encontrar. Diariamente, ele vende sua pauta ao editor, diariamente tenta provar, no lead, por A+B, por que é importante aquela noticia existir, ou aquele perfil de um artista iniciante ou uma história curiosa que pode render um textaço – nas mãos certas. Ele vende tanto e tão naturalmente que não se vê um vendedor nato. E quando pula advertida ou inadvertidamente para o marketing aí, sim, sente-se em casa e não volta para a Terra do Fumódromo. Entramos numa era em que o jornalismo saltita, serelepe, rumo ao marketing. Pedindo licença a Fernando Pessoa para adaptar seu clássico, venho aqui fazer uma... venda.
O jornalismo tomou um pescotapa pesado quando, no fim dos anos 2000, virou qualquer coisa ao começar a ser redenominado de conteúdo. A partir dali, o marketing se apropriou do jornalismo, tornando o já desgastado ofício em algo totalmente ultrapassado. Num primeiro momento, os social-media eram os caras, aqueles que sabiam todos os processos e ferramentas das redes sociais, eram chamados de gênios da comunicação global, conteudistas, estrategistas, os players. Enquanto deslizavam como estrelas, os jornalistas assistiam a toda aquela transformação como estátuas apavoradas. Perderam espaço em agências, em assessorias de imprensa que queriam investir em mídias digitais, em agências de publicidade. Até em redações.
Isso acabou. É uma afirmação tão certa quanto a derrocada do Fluminense sem o patrocínio da Unimed. Dominados as ferramentas e os processos, jornalistas, velhos e novos, atropelaram os social-media. O texto é melhor, o português é melhor, a noção do que de fato é importante é absurdamente superior e a checagem é básica (em todos os meus seis anos na área de marketing não conheci nenhum social-media checador). Jornalistas, enfim, estão colocando os social-media de volta ao seu devido lugar. E, mais do que isso, os que enxergaram o cume da montanha mais perto já migram suas pós, mestrados, MBAs, doutorados etc. para o marketing. Entram no mar e não querem se secar.
Vida curta
O resultado desse fenômeno é descrito em dois movimentos opostos, mas complementares: o primeiro é a falência de milhares de “agências digitais” por absoluta incompetência conteudista dos social-media; o segundo, a abertura de novas e igualmente incompetentes agências por social-media expurgados das médias e grandes agências por jornalistas mais experientes. Vivemos, portanto, um momento em que o jornalista toma o lugar do social-media num círculo em que o protagonista da decadência é a ex-estrela social-media.
Não vamos generalizar, mas precisamos entender o básico. No curso de publicidade ensinam ao sujeito como vender um produto de todas as maneiras possíveis, sem dó nem piedade, seja como for; no de jornalismo aterrorizam você com a perfeição de um bom texto, do conteúdo, da forma e das consequências do que você escreve. São sentimentos distintos. Seja criativo versus seja responsável. E hoje, com agências representando empresas em redes sociais, é importante entender que uma vírgula errada é meia dúzia de clientes indo navegar na empresa concorrente.
Assim que a internet bateu no Brasil (1994-95), assistimos movimento semelhante na forma da “modinha”. Diretores de jornais, assustados com “a nova linguagem da internet”, pegaram um monte de moleques e blogueiros e tacaram-os nas redações para “rejuvenescer” o papel. O resultado foi catastrófico: a qualidade dos textos, as pautas absurdas, as idiotices que só cabiam em blogs indigentes foram parar em nobres páginas de jornalões – e logo rechaçados por assinantes tradicionais. Complementando a investida desastrosa, pegaram os mais experientes e os empurraram para os sites de notícias. Enfraqueceram o papel e fortaleceram a internet. Demorou muito para os executivos das redações entenderem que ambas as plataformas precisavam de gente experiente e talentos novos. Um mix do melhor dos dois mundos.
Outra ventania de desespero no começo da internet foi a abertura, pelas empresas jornalísticas, de centenas de vagas para blogueiros que não tinham condições técnicas de habitar uma redação de jornal na era pré-internet. Com Google, corretor etc, a partir do fim dos anos 90 o jornalismo viveu uma abilolada fase, perdido, sem saber como lidar com os novos tempos da comunicação. Toda aquela rigidez na seleção dos jornalistas, dos anos 90 para trás, acabaria ali.
No começo dos anos 2010, os blogueiros, então estrelas moderninhas, tiveram que dividir as luzes com os social-media. Aqueles caras que tinham muitos seguidores no Twitter, frases incríveis, grandes sacadas, imagens, até design bacana. Mas os social-media não duraram muito. Logo logo jornalistas e blogueiros descobriram como usar todo o Facebook, o que fazer e o qe não fazer, como montar um anúncio, como engajar mais, como administrar uma crise de imagem na internet. E os social-media, apequenados, foram, e estão sendo, extirpados aos poucos do mercado.
Mario Marques é jornalista, CEO da LabPop Group, holding de 5 empresas nas áreas de marketing e vendas

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