A grande mídia televisiva tem um modus operandis bastante perverso quando se trata de promover sensacionalismo; por isso, nem sempre essa é a melhor forma de ficar a par das últimas notícias. Enquanto todo o foco das atenções é direcionado para casos das regiões Sudeste e Sul, temas e situações extremamente pertinentes para o povo brasileiro são deixados de lado.
Shows da banda New Hit se multiplicaram, enquanto vítimas precisam de proteção policial (Divulgação)
Um exemplo dessa seletividade excludente é o caso das duas adolescentes que foram estupradas pelos 8 integrantes da banda New Hit, em Ruy Barbosa, Bahia. Há mais de um ano os estupradores permanecem impunes, mesmo após todo tipo de averiguação e análises de DNA, que atestam que o sêmen encontrado nas vítimas pertence a seis deles e comprovam a participação dos outros dois. As meninas de 16 anos, que entraram no ônibus do grupo para pedir autógrafos, foram estupradas em turnos enquanto um PM estava do lado de fora do ônibus e garantia que ninguém interrompesse. Como se não bastasse esse cenário, que já é um horror para qualquer mulher, os membros da banda ainda criaram uma nova música com uma letra intimidadora e as garotas passaram a receber ameaças de morte.
Enquanto as duas garotas precisaram recorrer a proteção policial para terem um pouco de segurança, os shows da banda New Hit se multiplicaram. Vários grupos feministas em todo o país, como por exemplo o Núcleo Negra Zeferina, sempre presente nos protestos e campanhas de conscientização, pressionaram casas de eventos a cancelarem contratos com a banda. Mas apesar de todos os esforços, desde o registro da ocorrência há mais de um ano, o julgamento já foi adiado duas vezes. Na última terça-feira o julgamento teve início e a defesa dos músicos foi novamente vitoriosa em adiá-lo para os dias 17, 18 e 19 desse mês. Mesmo com todo esse infindável drama e dificuldade judicial, e apesar do nível hediondo do crime, a grande mídia continua não dando atenção para o caso.
Quando o assunto é estupro, a cobertura jornalística é bastante uniforme: há muitas insinuações a respeito do caráter das mulheres estupradas, sempre abordando o tema como se tudo não passasse de fantasia e invenção da vítima, sem qualquer compromisso em facilitar um debate sério e efetivo sobre o problema. Há muita misoginia em nossa cultura e, ao contrário do que o senso co mum prega, o jornalismo não é uma entidade imparcial e imune aos valores culturais da sociedade. Portanto, jornalistas também reproduzem e naturalizam idéias e atitudes machistas. É muito difícil encontrar profissionais empáticos no meio jornalista e os crimes sexuais são sempre encarados com muita naturalidade.

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