Jornalistas de novela

Achei no Blog do Jorge uma excelente compilação de jornalistas de novela, que reproduzo abaixo:

A cada novela que passa, fica mais clara a separação, quiçá rivalidade, que existe entre a Central Globo de Jornalismo e a Central Globo de Produção, que cuida da teledramaturgia da casa. Só isso explica a forma (tosca) como a classe jornalística é retratada nas novelas da casa. Deve ser até uma forma de vingança dos atores e diretores de novelas quanto aos paparazzi (e, a propósito, o que os paparazzi fazem não é jornalismo) e críticos bastante críticos que lhes perseguem. Mas nem sempre foi assim: essa relação já foi bastante amistosa, e foi degringolando ao longo dos anos. Jornalistas já foram muito bem representados na ficção da TV brasileira. Ok, de uma forma mais romântica e idealizada, a ponto de podermos responsabilizar algumas novelas por nossas péssimas escolhas profissionais (ou nossos nomes), mas não é para isso que novela serve? Em ordem (espero eu) cronológica, veja como foi essa evolução (?) da imagem do jornalismo na TV de ficção ao longo dos anos, que acabou desembarcando numa nova categoria profissional: o jornalista de novela.

Zelda Scott: Quem não se lembra de Zelda Scott, do maravilhoso mundo da Armação Ilimitada nos espontâneos e politicamente incorretos anos 1980 (mais precisamente, 1985-1988)? Certamente, muitas meninas escolheram a profissão por culpa dela, que vivia um triângulo sexual e amoroso com dois bonitões (da época), era independente, solteira, participava de aventuras radicais e sempre estava envolvida em coberturas interessantíssimas (e nunca publicadas) para o Correio do Crepúsculo. Não há registros de Zelda Scott ter feito sequer um plantão de fim de semana na vida, apesar do seu bravo e multifacetado Chefe, até porque o programa passava às sextas-feiras, o que, aliás, a deixava sempre no pescoção.


(Foto: www.trash80s.com.br)


Chefe da Zelda: Esse, com certeza inspirou muitos chefes e pessoas com pretensões de subir mais alto na hierarquia que estão hoje por aí. Afinal, era a melhor referência da profissão que se tinha inspirada na TV dos anos 1980 para quem não tinha coordenação motora suficiente para ser um Juba ou um Lula e viver de esportes radicais tradicionais (não que o jornalismo tradicional seja menos arriscado). Trocava tanto de roupa nos episódios, que aquelas fantasias só podiam ser jabá. Interpretado pelo fantástico (e saudoso) Francisco Milani.

(Foto: seuespassoaqui.blogspot.com)

Solange Duprat: Produtora de moda da revista Tomorrow, de Vale Tudo (1988-1989). Mocinha. Só se ferrava. Já era um aviso para quem achava que a vida de jornalista era boa. Não à toa, sumiu do mapa das novelas depois que Maria de Fátima aprontou todas com a sua personagem. Sua grande chance de subir de vida foi namorando e casando com o herdeiro rico da novela, o Cássio Gabus Mendes, com quem está até hoje.


(Foto: www.trash80s.com.br)

Paulinha (Paula Ramos): Repórter iniciante representada por Cláudia Ohana em Rainha da Sucata (1990), talvez tenha sido uma das responsáveis por jornalistas serem confundidos com paparazzi, que era o estilo dela na perseguição à personagem de Regina Duarte. Deve ter inspirado muitas meninas, já que pegava o bonitão Tony Ramos ao longo do folhetim. (Personagem lembrada pela leitora homônima.)


(Foto: YouTube)

Chico Mota: Uma das últimas representações decentes de que se tem notícia (sacou? Sacou?) de um repórter e do jornalismo contemporâneo em telenovelas, foi em em Andando nas Nuvens (1999), uma pouco lembrada novela das 19h, numa atuação de Marcos Palmeira, já acostumado a amassar cacau em Renascer (1993). Talvez, heroico demais, mas jornalista tem mesmo essa mania de achar que vai salvar o mundo. Única divergência da vida real para o personagem do Marcos Palmeira é que, na novela, o jornalista é o bonitão da história. Ajudou o fato de o enredo girar em torno de um jornal, o já conhecido Correio Carioca (concorrente do Diário de Notícias), que circula em toda novela da Globo que precisa citar nominalmente um veículo de comunicação, para não comprometer O Globo. Também contribuiu para a trama: ter outros bons atores, do naipe de Hugo Carvana, no elenco de personagens jornalistas. Dali para frente, foi só ladeira abaixo.


(Foto: YouTube)


Júlia (não Hannah) Montana: Personagem da Débora Bloch em Andando nas Nuvens, concorrente e par romântico do Chico Mota, foi bastante fiel à realidade ao mostrar que jornalistas adoram namorar e casar com jornalistas, porque não basta errar uma vez, e pobreza chama pobreza. No caso, a personagem era herdeira do jornal, o que no mundo real a transformaria em chefe mesmo sem nunca ter pisado numa redação. Mas, justiça seja feita, é bem verdade que jornalista quer comer o outro (em vários sentidos) mesmo trabalhando para o mesmo veículo. Como brasileiro adora imitar tudo o que vê na televisão, a personagem ajudou a lançar a moda da bolsa com alça atravessada na frente do corpo, que toda jornalista carioca ou da Folha (ou que quisesse ser uma dessas coisas) já usou alguma vez na vida. (O uso de óculos de aro grosso permanece sem explicação até hoje.)

(Foto: YouTube)


É sempre bom lembrar que parte do talento da excelente jornalista deve-se à sua extensa carreira no jornalismo de ficção, no qual estreou como a impagável Adelaide Catarina, da TV Pirata, império da mídia que tinha ainda entre as suas publicações a revista mensal de artesanato Faça Feio. (Lembrança do brilhante leitor Renato Machado.)

(Foto: Youtube)

Renato Mendes: Protótipo do jornalista/empresário mau-caráter, de Celebridade (2003-2004), que girava em torno do mundo (e do jornalismo) de celebridades, o editor da revista Fama imortalizou o gentil bordão "entendeu ou quer que eu desenhe?", que muitos repórteres têm vontade de falar para seus editores quando estes não entendem que a pauta caiu, ou que o personagem não se encaixa exatamente no perfil que ele tinha planejado. Rico, portanto, inverossímil. Hugo Carvana, depois de ser chefe de redação em Andando nas Nuvens, virou dono de um grande império da comunicação nessa novela, provando que jornalista de verdade não merece mesmo virar empresário rico, já que seu personagem acabou morto, respondendo como objeto do bordão "quem matou Lineu Vasconcelos?". Bem, até que, pensando assim, ele subiu na vida. (Pegou? Pegou?)


Entendeu ou quer que eu desenhe? (Foto: Youtube)

Zé Bob: Canastrão de A Favorita (2008-2009) desde o nome do personagem, passando pelo cabelo e pela jaqueta de couro, nunca foi visto com um gravador ou com um bloquinho na mão e nunca deu um retorno para a chefia na redação. Como todo jornalista de novela, passava mais tempo preocupado com a sua própria vida do que com a do jornal, além de ser o galã da história e ter um carrão. Com certeza, inverossímil. Ou o carro era jabá de alguma montadora (sendo novela, o nome técnico é "merchandising"). Só a barba cuidadosamente "por fazer" e osmullets no cabelo davam algum tom de veracidade ao personagem.


(Foto: afavorita.globo.com)

Maíra: Fazia "dupla de repórter" com Zé Bob em A Favorita, portanto, outra figura que não existe na vida real, a não ser na Publicidade, o que mostra que, para escritor de novela, dá tudo na mesma. Ao morrer na novela, assassinada pela cruel Flora, provou a tese de que atores e diretores de novelas usam novelas para se vingar de jornalistas. Depois disso, Juliana Paes concluiu que era melhor ganhar a vida dançando e imitando cara de indiana em Caminho das Índias.


(Foto: Youtube)

Bruno: Ninguém se lembra do fotógrafo da pouco vista Viver a Vida (2009-2010). Deve ser porque ele não trabalhava muito, ou porque era o Thiago Lacerda mais uma vez fazendo o mesmo papel de sempre em sua carreira, o de ele mesmo, seja médico, jornalista ou açougueiro. Além disso, tinha um vidão: viajava pelo mundo e fotografava quando queria. Definitivamente, não parecia jornalista.


(Foto: viveravida.globo.com)

Diana: Pior personagem já interpretado por Carolina Dieckmann (e olha que a concorrência foi dura), vivida em Passione (2010-2011). Ajudou a desmoralizar e envergonhar de vez a classe, ao conseguir emprego de assessora de imprensa na empresa da família do namorado (por indicação do próprio, claro) e falar frases como "já recolhi todo o material de que eu precisava para a matéria", parecendo mais que trabalhava em laboratório de análises clínicas. A atriz mostrou que tinha feito seu trabalho de pesquisa ao chamar jornalistas de pobres, no seu Twitter, antes de estrear na novela. Talvez, a morte mais comemorada da história da TV brasileira. Fora tudo isso, não disfarçava o sotaque carioca para dizer que era do interior de São Paulo, mas que fazia pós na "úshpi".


(Foto: YouTube)

Kléber Damasceno: Com certeza, o jornalista mais talentoso e convincente que já apareceu na telenovela brasileira. Sempre duro e desempregado, perseguia as injustiças de todos os níveis e tinha como alvo principal o banqueiro bandido da novela. Representado por Cássio Gabus Mendes, provavelmente para se vingar de todas as traições que sofreu da Maria de Fátima em Vale Tudo. (A morte de Norma é mal explicada até hoje...) Em compensação, era machista, viciado em jogo, homofóbico e grosso à beça. Enfim, representou a nata do jornalismo brasileiro, em Insensato Coração (2010-2011). Como todo bom jornalista contemporâneo, acabou a vida fazendo um blog.


(Foto: tvg.globo.com/novelas/insensato-coracao)

Marcela: Essa é comprovação cabal de que diretores e escritores de novela odeiam mesmo jornalistas. Protótipo da repórter periguete, chantagista, mau-caráter, ameaçou até a escolada Carolina Dieckmann, já safa nessa vida de jornalista de novela e até de celebridade, em Fina Estampa, atualmente no ar. Na vida real, duvido que exista uma jornalista freelance tão abusada e metida assim, tendo que dar nota fiscal no fim do mês para receber como PJ. Aliás, não ficou claro se ela tinha empresa ou se comprava nota. Típica jornalista de novela: nunca trabalhava e só ficava azucrinando a vida dos outros. Acabou morrendo, como fruto de suas chantagens, bebê. (Outra morte comemorada, se é que ela morreu mesmo, pois vaso ruim não quebra nem em novela. Pensando bem, até que a Globo é legal com a classe jornalística matando, ou tentando matar, as jornalistas toscas.)


(Foto: tvg.globo.com/novelas/fina-estampa)

Solange: O futuro do jornalismo brasileiro, ou pelo menos do jornalismo de novela brasileiro, a funkeira Sol, estudante do excelente ensino público municipal do Rio de Janeiro (ou melhor ainda, da Barra da Tijuca) em Fina Estampa, recebeu o conselho de procurar uma coisa mais fácil, tipo Jornalismo, do seu próprio namoradinho, Daniel, que cursa o primeiro ano de Medicina de Novela e, por isso mesmo, já se acha.


(Foto: tvg.globo.com/novelas/fina-estampa)

A má representação de jornalistas em novela faz até os outros personagens desrespeitarem a profissão (além de não fazerem ideia de como as coisas funcionam). Recentemente, o muito bem interpretado Antenor, na mesma Fina Estampa (obrigado, Aguinaldo Silva), ligou para o Diário de Notícias e o seguinte diálogo (?) se sucedeu: "eu queria falar com O repórter. Como para quê?! Para dar um furo de reportagem". Como se dissesse: "alô, é do açougue? Quero falar com o açougueiro. Como para quê? Para comprar picanha, ora". Ah, se o povo do Prêmio Esso descobre como as grandes reportagens chegam aos jornais... E o jornalista convocado ainda garantiu: "sou repórter, estou acostumado, sou rápido no gatilho". Tudo bem que tem coleguinha arrogante, mas, com essa autoestima toda, é difícil de acreditar.


(Foto: tvg.globo.com/novelas/fina-estampa)

Beto Júnior: Por fim, ele, a última aparição Global de um jornalista em novela e responsável pelos últimos comentários de indignação dos jornalistas do mundo real nas redes sociais contra a péssima representação da sua categoria também na ficção. Tal como na vida real, sua importância para a trama é tão grande, que seu personagem, com nome de locutor de rádio do interior, nem aparece na lista do elenco do site oficial da novela Fina Estampa, nem mesmo abaixo das crianças ou de personagens desconhecidos (eita, novelinha cabide de emprego). Retrato dos novos tempos de "sinergias" nas redações, o personagem interpretado por Danilo Sacramento (tive que dar um Google) cobre de tudo um tudo: entrou no folhetim como "o repórter" investigativo convocado por Antenor, mas, pelo visto recentemente, também é setorista de esportes. Ou foi remanejado pela direção do seu empregador, o Diário de Notícias, após ter feito um grande estardalhaço e vendido como grande furo a bobagem de que a personagem da Christiane Torloni. Agora, cobre a "nova" aposta da Globo, que é o MMA, vulgo vale-tudo, que existe há uns 20 anos. É também a prova de que Aguinaldo Silva odeia jornalistas, pois é a terceira menção denegritória à classe na novela.


O brilhante, pretensioso e polivalente jornalista em atuação, concorrendo em veracidade com os lutadores Minotauro e Minotouro (pelo menos, eles não vivem disso) (Foto: tvg.globo.com/novelas/fina-estampa)
Aliás, só tem profissional pretensioso nessa novela. Além do concorrente do lutador Wallace Mu, o último foi o Marcello Antony dizendo que é cardiologista "e dos bons".

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