Escola Base e o perigo da mídia justiceira

por Nahida Almeida Ghattas * em 16 de abril de 2014

No ano de 1994, existia em São Paulo uma escola particular de educação infantil como várias outras da cidade, a Escola Base. Até que um dia tudo explodiu e a vida daqueles que trabalhavam lá nunca mais foi a mesma. Onde antes circulavam alunos e funcionários, repórteres ávidos por uma manchete de destaque começaram a entrar em cena.
Tudo por causa da denúncia de que os donos da escola, funcionários e até pais de alunos estariam abusando sexualmente de crianças que estudavam por lá. Assunto sério. Crime, que merecia apuração por parte das autoridades policiais e dos jornalistas que se propuseram a divulgar o ocorrido.
Na época, o delegado do caso divulgou informações à imprensa sobre o suposto crime de pedofilia baseando-se em laudos preliminares, como comenta Luiz Marcelo Diniz. Foi então que muitos veículos da imprensa passaram a trazer notícias sobre o assunto. A revista Veja colocou a Manchete “Uma escola de horrores”, o antigo jornal Notícias Populares foi mais além e disse que “Kombi era motel na escolinha do sexo”. Canais de televisão como a rede Globo também deram informações que tinham o crime como verdade.
É importante ressaltar aqui que no meio de tantos veículos de comunicação que publicaram a notícia, um deles, o Diário Popular tomou a atitude contrária. Depois que o repórter Antonio Carlos Silveira voltou até a redação com as informações, considerou que não existiam provas do abuso sexual contra as crianças e seguindo a mesma linha de raciocínio do jornalista, a direção do jornal optou por não publicar a notícia. Provavelmente por terem nadado contra a maré, foram chamados de “vendidos”, como relata Nathália Carvalho do portal Comunique-se.
Já que a imprensa estava recheada de conteúdos que colocavam os supostos envolvidos no caso como criminosos, a opinião pública também seguiu nesse sentido. Sendo verdade ou não, para a imprensa e grande parte da sociedade eles já eram criminosos.
Algum tempo depois a Justiça arquivou o processo por falta de provas. Ou seja, durante um bom tempo, seis pessoas inocentes tiveram seus nomes e rostos estampados na mídia como autores de um crime horrível que eles não haviam cometido. Não foram condenados pela Justiça comum, mas deve ser muito difícil esquecer a condenação injusta que sofreram pela sociedade.
Grandes empresas de comunicação como a rede Globo, os jornais Estado e Folha de São Paulo e a revista Istoé foram condenados a pagar indenização. Porém, 20 anos depois do acontecido será que a imprensa e a população aprenderam a lição?
É sim papel do jornalista divulgar informações de interesse público como são os casos de crimes contra crianças e a sociedade deve cobrar justiça para quem os comete. Mas, sabendo do poder que tem, o jornalista deve tomar muito cuidado para não repetir o mesmo erro que os colegas que trabalharam na cobertura do caso da Escola Base e não condenar inocentes previamente. Se um profissional foi capaz de identificar a falta de provas e seu jornal não publicou a notícia, é porque algum indício havia de que a história não era do jeito que parecia ser. Retratar uma pessoa na imprensa como criminosa e ela não ser é algo muito grave, que pode destruir a vida e a reputação dessa pessoa. Isso não há dinheiro nem indenização que pague ou recupere.
Hoje em dia, poucas pessoas falam sobre esse assunto, mesmo que ele ainda seja lembrado nos cursos universitários como uma falha grave do jornalismo brasileiro. Casos polêmicos como esse continuam a acontecer, como foi o caso da menina Isabela Nardoni e mais recente a morte do menino gaúcho Bernardo Uglione Boldrini que teve o corpo encontrado em um matagal, e a atuação do jornalismo ao abordá-los precisa ser delicada e responsável. Delicada porque é um assunto que envolve a tragédia e o sofrimento de uma família e ninguém deseja ver sua dor espetacularizada. Responsabilidade porque não é papel da imprensa condenar alguém, mas sim apurar os fatos e repassá-los ao público de modo que não caibam dúvidas e que um inocente não seja condenado por um crime que não cometeu, ainda mais se ele for tão grave quanto esses.
Nahida Almeida Ghattas é jornalista egressa da UFMT Araguaia

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