Correspondente da BBC, no Rio de Janeiro

Hoje, fui ao funeral de um homem que eu não conhecia. Mas tudo o que ouvi e li sobre Santiago Andrade nos últimos dias me faz desejar ter conhecido e passado mais tempo na companhia dele.
Os poucos minutos nos quais nossos caminhos se cruzaram em uma praça no Rio de Janeiro na semana passada foram caóticos, confusos e, em última análise, fúteis. Por talvez uma hora e meia, eu fiquei com aquele pai de família de 49 anos de idade em um hospital no centro da cidade enquanto médicos lutavam para salvá-lo.
Santiago Andrade não saiu do hospital com vida.
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Cinegrafista da Band morre após ser ferido em protesto no Rio55 fotos

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13.fev.2014 - O corpo do cinegrafista da "Band" Santiago Ilídio Andrade, 49, morto nesta segunda-feira (10) começou a ser velado por volta de 8h20 desta quinta-feira (13), no cemitério do Caju, no Rio de Janeiro Leia mais Antonio Scorza/UOL
Faz exatamente uma semana desde que o cinegrafista da Rede Bandeirantes caiu com a explosão de um artefato, um tipo de sinalizador ou peça de fogos de artifício, atrás de sua cabeça enquanto ele cobria um dos protestos contra o governo no Rio de Janeiro.
Menos de quatro segundos depois, meu colega da BBC, Keith "Chuck" Tayman, e eu estávamos a seu lado.

Antes de chegar ao Brasil há cerca de cinco meses, eu passei os últimos três anos baseado no Oriente Médio cobrindo, entre outros eventos, as quase sempre traumáticas revoltas árabes.
No Egito, em Gaza e na Líbia, eu presenciei cenas chocantes, emocionalmente aflitivas e vi, com muita frequência, as terríveis consequências dos conflitos.

Então, quando ajoelhei ao lado do corpo de Santiago, não fiquei congelado ou em dúvida sobre o que deveria fazer, mesmo vendo seus ferimentos terríveis. A explosão deixou uma enorme ferida em sua cabeça, através da qual o sangue já começava a escorrer.

VEJA O MOMENTO EM QUE O CINEGRAFISTA É ATINGIDO POR BOMBA


Todos os funcionários da BBC que trabalham em áreas de conflito passam por um treinamento chamado "hostile environment" (ambiente hostil) --cuja parte mais valiosa é, sem dúvida, a preparação para prestar primeiros socorros. Tendo trabalhado anteriormente como guia de expedições em montanhas, eu também já havia usado esse conhecimento em outras ocasiões.

Na falta de um kit de primeiros socorros ou de bandagens apropriadas, Chuck instintivamente retirou sua camiseta e a pressionou contra a ferida na cabeça de Santiago para estancar a hemorragia. Apesar de inconsciente, Santiago respirava pesadamente. Em meio ao caos, fizemos o melhor que podíamos para estabilizá-lo.

Eu já vi muitas vítimas de violência deixadas deitadas no chão enquanto policiais e transeuntes ficam imóveis, por relutância ou incapacidade de ajudar, durante aqueles que podem ser os momentos mais críticos para a sua sobrevivência.

Na hora em que a ajuda médica profissional chega, frequentemente, é muito tarde; a vítima pode ter morrido pela perda de sangue, insuficiência cardíaca ou simplesmente porque ninguém verificou se ela continuava respirando.

Os ferimentos de Santiago eram tão graves que nós sabíamos que deveríamos levá-lo ao hospital imediatamente. Mas alguns policiais - talvez não percebendo a gravidade da situação - acabaram dificultando nossa passagem enquanto muitos manifestantes protestavam e gritavam culpando a polícia pelo ataque. Foi demonstrado, de forma quase inegável, que o artefato foi disparado por uma dupla de manifestantes que acabou sendo identificada.

Enquanto tratávamos de Santiago no chão, também tivemos que "controlar" a situação. Após alertar diversas vezes os policiais sobre a urgência do momento, carregamos cuidadosamente seu corpo, de 82 quilos, para a parte de trás de um carro de polícia e corremos para o hospital mais próximo.

O tempo pareceu uma eternidade, mas, desde o momento em que vi Santiago soltar sua câmera e cair no chão até a corrida contra o fluxo do tráfego pela principal avenida do Rio para o hospital, passaram-se apenas seis minutos.

Eu e Chuck esperávamos que tivesse sido tempo suficiente para ajudar a salvar a vida de Santiago Andrade.

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Imprensa internacional destaca morte de cinegrafista atingido por rojão no RJ7 fotos

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10.fev.2014 - O portal do períodico "The Dhaka Post", da Bangladesh, deu destaque nesta segunda-feira (10) para a morte encefálica do cinegrafista da "TV Bandeirantes" Santiago Andrade, 49, alvejado por um rojão durante os protestos contra o aumento das passagens de ônibus, no Rio de Janeiro, na semana passada Reprodução