Carlos Castilho
Muitos podem nem gostar, mas o fato é que os números – na forma de dados, cifras, estatísticas ou gráficos – começam a alterar a forma como o jornalismo é praticado. E a principal mudança está na maneira como a narrativa é desenvolvida. Em vez de um texto voltado para o consumo imediato, o surgimento da notícia/dado obriga os redatores e repórteres a pensar no seu uso futuro, como integrante de bancos de dados.
A atual geração de jornalistas ainda pensa predominantemente em termos das perguntas o que, quem, quando, onde, como e por que, incorporadas aos manuais de redação como parte da preocupação com o consumo imediato, ou seja, validade por 24 horas. Depois disso, a notícia torna-se resíduo informativo raramente reciclado. A cultura das redações sempre colocou num nível secundário a preocupação com o arquivamento do material publicado porque ele, no máximo, serviria para tirar dúvidas, produzir necrológios ou listar eventos similares.
A digitalização mudou tudo isso de forma radical e a adaptação das redações ao novo contexto da notícia está sendo muito lenta porque não se trata apenas de uma mudança técnica, mas de cultura e de rotinas. Como o jornalismo é hoje cada vez mais praticado em plataformas digitais, a notícia passa a ter um prazo de validade praticamente infinito. Depois de lida, ouvida ou vista, quando aciona os mecanismos de produção de conhecimento, ela se transforma em dado digital armazenado em sistemas eletrônicos onde poderá ser facilmente recuperada e reprocessada.
Ocorre que a maioria esmagadora dos redatores e repórteres, quando redigem uma notícia, não estão preocupados com o seu uso futuro como dado. Os profissionais e praticantes de atos de jornalismo (informantes amadores) ainda usam expressões como “ontem”, “semana passada”, “recentemente” e outras similares, que fazem sentido quando a notícia é consumida de imediato, mas confundem quem for acessá-la daqui a alguns meses ou anos.
A maior parte da imprensa convencional continua apegada à cultura da “notícia empurrada” (push news), expressão usada por Reg Chua, editor de dados e inovações na empresa Thompson/Reuters. A grande preocupação dos profissionais do jornalismo ainda é fazer com que a notícia “vá atrás do leitor”, embora a tendência seja no caminho contrário. É o leitor “puxando a notícia” (pulling the news) em bancos de dados para poder entender o que está acontecendo ou esclarecer uma dúvida especifica.
O jornalismo é cada vez mais parte integrante da chamada cultura dos grandes dados (big data), um tema sobre o qual já falamos em postagens anteriores (ver “Jornalismo de dados cria primeiro repórter milionário” e “O jornalismo está sobre uma mina de ouro e parece não saber”). Nesta nova realidade, as sobras de uma reportagem, aquelas informações e observações do repórter que não são usadas no texto ou nas imagens, passam a ser tão importantes quanto o que é publicado. O que é lixo para alguns pode ser valioso para outros. A valorização das sobras é outra consequência da digitalização, porque antes o custo/beneficio tornava inviável o arquivamento físico. Agora o custo está quase em zero e os softwares de processamento permitem a recuperação rápida de material antigo.
A nova preocupação com o prazo de validade da notícia é um dos itens do chamado jornalismo estruturado, desenvolvido com a preocupação de criar e usar bancos de dados a base de notícias. O adjetivo estruturado foi copiado do jargão dos programadores para os quais uma informação estruturada é aquela formatada para inserção em bancos de dados.
As empresas jornalísticas são obrigadas a disputar espaços com projetos comerciais desenvolvidos a partir de notícias digitalizadas. A briga da imprensa com a empresa Google é o espelho desta realidade. Os jornais foram lentos demais na identificação de novas oportunidades digitais porque viviam embalados pelos lucros astronômicos do século 20. Agora tentam recuperar terreno usando o surrado recurso a normas e regulamentações baixadas por políticos que estão ainda mais defasados da realidade.

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