Pessoa no protesto

      Eri Castro
Que relação existe entre Fernando Pessoa e os protestos que varrem o Brasil desde junho de 2013? Aparentemente, muito pouca ou quase nenhuma. Pessoa foi um homem fragilizado por um mundo bruto que nunca reconheceu o valor de seu trabalho até que a morte o levasse deste mundo em 1935. Fernando Pessoa levou uma vida infeliz e amargurada.
Desde o final de setembro deste ano uma foto com uma frase de Álvaro de Campos, uma das personalidades literárias (ou heterônimos) criadas pelo poeta português vem aparecendo mais e mais na mídia brasileira e nas redes sociais. O precioso instantâneo mostra um jovem manifestante de costas voltada para a câmera, a encarar um grupo de soldados da tropa de contenção de distúrbios urbanos - o batalhão de choque da polícia militar. Na camiseta do rapaz lê-se com clareza: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo...”. Apenas uma pequena parte de um verso do poema “Tabacaria” (1928), um dos mais famosos e melhores de seu alter-ego Alberto de Campos.
Pessoa criava personalidades inteiras a partir de si mesmo e de suas vivências somente para poder ver-se na pele de outros e escrever o inesperado ao leitor. Criou seus heterônimos para ver-se livre daqueles que o que queriam preso dentro de molduras fixas classificatórias.  O poeta foi muito além dos rótulos e das categorizações. Seu talento era grande demais para um só homem. Por isso ele criou Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro – além do esquecido e renegado Bernardo Soares. Campos era o que mais refletia as angústias do poeta e sua torturada vida.
            Imagem, poesia e linguagem no protesto                                                                                                                                                                    
Cartier-Bresson, o poeta francês da imagem, acreditava que não se fotografa com a mente. Ao contrário, o fotógrafo deve capturar a realidade sem mediações cerebrais ou construtivismos que levam o observador para perto das aveleidades do autor e para longe da realidade que deveria ser transmitida pela lente do fotógrafo. “Fotografar é colocar em linha o olho, a cabeça e o coração”, ensinou ele no livro ‘’Henri Cartier-Bresson: Point d’Interrogation’’(Sarah Moon, Production Take Five, 1994).  
Foi isso o que intuitivamente fez o blogueiro brasileiro Eri Castro (19/05): durante os protestos contra a privatização dos portos pela atual administração, ele apontou sua lente para o corpo do manifestante e fez a foto. Sem muito pensar, sem enquadramentos planejados, recursos digitais mirabolantes ou montagens fantasiosas. O resultado foi fantástico: o impacto da imagem reverberou em quem a viu o da filmagem do rapaz chinês que paralisou por alguns instantes uma coluna de tanques durante os protestos na Praça da Paz Celestial em 1989 em Pequim.
No planalto central do Brasil, um jovem só parece deter as hordas truculentas da polícia do estado. Que parecem mansamente mesmerizadas por todos os sonhos do mundo rabiscados ali nas costas  dele. Eles o defendem da sanha e da brutalidade da polícia militar que o Brasil insiste em manter, apesar dos conselhos da ONU. Como Orfeu, o canto do poeta lusitano parece acalmar as feras e afastá-las de sua bestialidade natural. Fernando Pessoa, que nós brasileiros tanto amamos, agora faz parte da nossa história recente de lutas, e em grande destaque. Uma imagem poderosa mostra o poder da colaboração da mídia alternativa.
Há mais a dizer sobre Fernando Pessoa e o Brasil. A Agencia Brasil de notícias (19/06) revelou a antiga disputa entre lusos e brasileiros sobre quem mais ama o poeta. Os repórteres Nádia Faggiani e Gilberto Costa entrevistaram a professora Teresa Rita Lopes, catedrática de Literaturas Comparadas de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Perguntaram a acadêmica se Pessoa era mais querido no Brasil que em Portugal. “Essa imagem é correta?”, questionaram os jornalistas. A professora respondeu com maestria:
“Isso é uma velhíssima questão. Os brasileiros pretendem, e eu gosto que pretendam porque me comporto como cidadã da pátria da língua portuguesa. Essa ideia de que os brasileiros descobriram primeiro o Fernando Pessoa é um bocado verdadeira. Descobrir é amar. A ideia é complexa porque Portugal é um país pequenino e o português também é diferente do brasileiro: é um indivíduo complicado, é aquele novelo enrolado para dentro que o Álvaro de Campos dizia que o Pessoa era.”
                                            
                         Coragem para agir
Fernando Pessoa, para minha geração tão influenciada pela contracultura, popularizou-se bastante no Brasil através do movimento tropicalista: Caetano Veloso e sua irmã Maria Betânia a todo instante faziam referências ao mestre das letras portuguesas. Chico Buarque também ajudou bastante a divulgar a obra do poeta entre nós.  Junto com os realizadores Luís Buñuel, Federico Fellini, Píer Paolo Pasolini, o pintor Salvador Dalí, os escritores Julio Cortázar, Garcia Lorca e outros mestres reconhecidos pela minha geração, Pessoa é parte de um conjunto de artistas cultuados e amados por todos os brasileiros envolvidos, em maior ou menor grau, com a contracultura no anos de 1960 e 1970.
Por isso a grande emoção provocada pela foto de suas palavras escritas nas costas de um manifestante na capital do Brasil: a herança foi passada da minha geração à garotada de hoje. Gente que conhece o terrível poder de um “não”. Pessoas que temem por seus futuros em um país que apenas começa a longa caminhada que trará, um dia, a redenção eterna das forças opressivas que querem manter nossos corpos e mentes em eterno cativeiro: se não o conseguem com mimos e concessões do governo ou do mercado, apresentam suas armas, suas bombas e seus gases malignos.
A população brasileira acordou de seu delírio festivo. Ninguém mais quer esperar pelas promessas vazias dos políticos e seus projetos enganosos para o futuro. Ou pelas bombas da polícia. Quando o povo consegue assustar os políticos e forçá-los a agir com respeito ao voto do cidadão não é hora de recuar e ‘aliviar’ a pressão. O contrário é verdadeiro: é tempo de manter o aperto contra todo o modelo político vigente no país, e em outras partes do mundo também. A associação fracassada entre centro-direita e centro-esquerda beneficia governos eleitos corruptos em regimes com baixa ou nula representatividade popular por boa parte do planeta.
Muito neste mundo foi negado a Fernando Pessoa: amores, filhos, vida em família e estabilidade financeira, principalmente. O poeta transformou tudo em drama universal: no nosso mundo não adianta apenas estarmos certos ou termos razão. Precisamos ter a consciência do momento certo para a ação. Temos que estar certos na hora certa. E coragem para agir. Em ‘Tabacaria’, ele não poupou a si mesmo da crítica à razão sem ação concreta.
Fernando Pessoa agora faz parte do ano em que vivemos em perigo. Um ano que ainda vivemos a aguardar inquietos a aproximação da próxima Copa do Mudo de futebol em nosso país depois de 63 anos. Um ano que não nos deixará jamais esquecer que o sonho também é uma forma de saber, viver e lutar. Desde que acompanhado de iniciativa, determinação e capacidade de agir na hora certa.
Via GGN

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