De todas as angústias que corroem o espírito humano, o suicídio é uma das mais inquietantes. O suicida é um provocador. O suicida, escreveu Nélson Rodrigues, “não é um morto qualquer. Tem uma morte única, inconfundível, inalienável”. Ele vai embora e nos deixa sozinhos e pasmos diante da força incontornável do seu gesto. Não poderia ser diferente: suicídios são um tema espinhoso para jornalistas. De há muito, acreditava-se e ainda acredita-se que a notícia de um suicídio pode estimular suicidas latentes. Como se qualquer outro gesto não fosse, em si mesmo, uma provocação. Mas as costas do jornalismo ardiam diante da possibilidade de carregar um suicídio nos ombros.
Já nas primeiras horas da manhã de ontem, uma leitora ligou movida a indignação: “Vocês agora estão publicando suicídios. Que sensacionalismo!”. O jornalista recém-chegado à redação ainda não tinha lido a matéria publicada. Pediu licença à leitora e percorreu a notícia, enquanto ela continuava do outro lado da linha. Não, respondeu o profissional. O texto e a foto tinham a contenção necessária a acontecimentos como aquele — um policial civil deu-se um tiro no rosto diante da mulher numa academia de ginástica em horário de muito movimento.
Na noite do acontecido, enquanto os editores ponderavam se deveriam ou não publicar a notícia, as redes sociais divulgavam foto do morto estendido no salão da academia, seguida de comentários, não poucos deles acompanhados de um juízo moral. Entre os que estavam na academia na hora da tragédia, pelo menos um teve ímpetos de jornalista, o de fotografar o corpo ensanguentado e publicar a imagem em primeira mão. Praticava uma das mais arriscadas ambições do jornalismo, o do furo de reportagem. O que põe em questão, mais uma vez, o exercício do jornalismo em tempos de devassidão virtual. A corrida pela informação exclusiva costuma vir acompanhada da apuração apressada e insensata.
O jornalismo exercido profissionalmente, com a responsabilidade que o constitui ou deveria constituir, não pode desconhecer a existência de uma tragédia ocorrida publicamente e diante de um número considerável de pessoas. Fosse eu parente ou amiga da vítima ou de seus mais próximos, me fecharia em copas. Mas sou jornalista e, nesta função, tenho a obrigação profissional de reportar os acontecimentos que alteram o cotidiano de um grupo, de um bairro, de uma população, de uma cidade, do mundo. Sempre tentando chegar o mais próximo possível da verdade dos fatos — embora saibamos que, em casos de suicídio, só o suicida poderia explicar, se quisesse e/ou pudesse, o seu gesto.
Ao fim e ao cabo, esse é o escorregadio território que sustenta o exercício da profissão e, por extensão, o exercício da vida. É um abismo insuportável e insuperável que angustia a todos, próximos ou distantes, profissionais ou amadores, diante de uma morte assim decidida.
Fonte: Conceição Freitas - Correio Braziliense
