Por Antonio S. Silva

As armadilhas estão por todos os lados. Nas ruas há discursos, hoje mais do que ontem. Não conhecê-los ou reconhecê-los é o divisor de águas para a ordem do país.

 A ex-senadora Marina Silva dá entrevista à Folha no gabinete do senador Pedro Simon (PMDB-RS)

Cada vez tona-se visível o distanciamento dos políticos com as ruas e a busca permanente de responder a mídia, conforme sinaliza ser o politicamente correto, o que pode ser um erro e perda de popularidade. Pelo menos vem sendo o discurso de vários  postulantes à presidência da república brasileira, cujas eleições se aproximam.

Marina Silva (Rede), vista como de pensamento socialista, com proteção ao meio ambiente e igualdade social, repete o mesmo tom dos demais candidatos quando a discussão é movimentos de rua. A perspectiva é a ordem do Estado. Argumentos semelhantes ao da Presidente Dilma Rousseff, no início dos movimentos sociais, quando perdeu apoio popular, de maneira considerável.

Em tempo é necessário analisar que a destruição do patrimônio público não é o correto e desejável, mas há outros análises possíveis, cuja discussão permite aprofundar o debate. Certamente a violência se relaciona com a falta efetiva e reconhecimento do posicionamento de determinados grupos sociais – que não se trata de alguns indivíduos. Num jargão, “o buraco é mais embaixo” e merece menos simplicidade na abordagem.

As pessoas nas ruas e nas suas casas, numa grande maioria, se mostra descontente com a representação social – a crise política é visível. A pura e simples repetição de falas daqueles que administram o Estado desfavorece o novo, sendo que a dúvida de seus procedimentos leva a manutenção do que já é conhecido. Possivelmente uma reação negativa e a decepção deste popular quanto aos novos representantes, que se mostram.

A mídia busca de defender a ordem social – afinal são instituições que zelam pela manutenção das ideias postas e manutenção do status quo. O conhecimento dos meios de comunicação é uma obrigação dos formadores de opinião e de quem pretende se lançar como liderança pública.

As armadilhas estão por todos os lados. Nas ruas há discursos, hoje mais do que ontem. Não conhecê-los ou reconhecê-los é o divisor de águas para a ordem do país.

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Abaixo entrevista à Folha de S. Paulo – 18/08/2013

Maior beneficiária do abalo que as manifestações de rua causaram no mundo político, a ex-senadora Marina Silva, 55, diz que os protestos que recorrem à violência “extrapolam” os limites da desobediência civil aceitável.

Tendo saltado de 16% para 26% das intenções de voto, ela diz que foi um “erro em todos os aspectos” a presença de um membro da Rede na depredação do Itamaraty. “No Estado Democrático de Direito existem regras.”

Ela também diz acreditar que o apoio popular ao nome de Joaquim Barbosa à Presidência representa mais um desejo de justiça que uma real aspiração de que o relator do mensalão comande o país: “Desejos por messias não são bons em hipótese alguma”.

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Folha – A sra. dizer que não é candidata não contradiz seu discurso de autenticidade?
Marina Silva - Mas eu não estou dizendo que não sou. Digo que não estou no lugar de candidata, que a candidatura é uma possibilidade.

Caso a Rede não seja criada a tempo, o nome Marina Silva estará na urna em 2014?
Não quero falar por hipótese. Estamos focados na Rede.

Vocês estudam impor limites a doações, têm pouco tempo na TV e palanques fracos nos Estados. Campanha desse jeito não é muito “sonhatismo”?
Não sei o que você chama de “sonhatismo”. Gostaria de saber o que seria muito realismo? É aceitar o que está aí como uma fatalidade e que não existe saída?

A sra. vê Joaquim Barbosa como um candidato viável?
O que a sociedade está sinalizando com certeza é que tem um desejo imenso de que a justiça seja feita, que a impunidade deixe de ser uma realidade no nosso país.

Não como candidato salvador da pátria, um messias…
Desejos por messias, eles não são bons em hipótese alguma, não existem salvadores da pátria, existem homens e mulheres que se dispõem a construir a pátria.

A sra. apoia atos que resultam em depredações e confrontos?
Eu tive um momento muito importante na minha vida na década de 80 quando fizemos os movimentos contra os desmatamentos na Amazônia. Havia um grupo que achava que éramos tão indefesos que tínhamos de enfrentar os jagunços na mesma moeda. Na época eu vi serem assassinados [os ambientalistas] Wilson Pinheiro, Chico Mendes e João Eduardo. Minha opção sempre foi de fazer movimentos pacíficos. Atos de desobediência civil podem ser feitos de forma pacífica, sem desrespeitar direitos fundamentais–por exemplo, agressão às pessoas, ao patrimônio.

Como as autoridades devem lidar com essas situações?
No Estado Democrático de Direito existem regras a ser observadas. O Estado está ali para assegurar inclusive os direitos dos manifestantes de se manifestarem, mas também para proteger o patrimônio das pessoas e o patrimônio público.

A sra. acha que aquele integrante da Executiva da Rede errou no ato do Itamaraty?
Ele próprio reconhece que errou. Sei que ele errou em todos os aspectos, até porque no meu entendimento não é com uma atitude violenta que se vai resolver os problemas.

Qual é a impressão que a sra. tem de movimentos como a Mídia Ninja e Fora do Eixo?
Eles estão vivendo agora uma série de críticas. Não tive tempo de aprofundar essas críticas. O que merece reparação deve ser reparado. Se tem que algo a ser investigado, tem de ser investigado.

Petistas dizem que a sra. perderá apoio por causa das suas posições conservadoras.
Se você fizer uma pesquisa da forma como a ministra Dilma e o governador Serra se portaram nas eleições do segundo turno de 2010, acho que dificilmente conseguiríamos algo mais conservador do que aquele tipo de postura. A diferença é que eu procuro dizer exatamente aquilo que penso.

A sra. diz que manteve nos últimos anos uma agenda socioambiental. Acha que até a eleição é possível complementar esse perfil?
Mas quem foi que disse que defender meio ambiente não é tratar de economia, que falar de desenvolvimento sustentável não é falar de infraestrutura, de educação, de ciência, de tecnologia, de agricultura?

A aparência não é essa: o Datafolha mostra que a sra. é vista pela população como uma das menos preparadas para administrar a economia.
A população tem direito de saber mais das pessoas que ela não conhece. Imagino que o sociólogo FHC e o operário Lula também tenham suscitado algumas dúvidas.

Ao se aproximar de André Lara Resende, a sra. não teme ser associada ao governo FHC?
Se Lula fosse se preocupar em ter ouvido uma série de pessoas que já deram contribuição em vários governos, ele não seria hoje o grande admirador do Delfim [Netto] que ele é.

Autonomia do BC para a senhora é “clausula pétrea”?
Autonomia do BC é necessária, fundamental. Eu não acho que devemos é entrar no caminho da institucionalização dessa autonomia.

Mexeria na Previdência?
O Brasil precisa encarar as grandes reformas: política, da Previdência, tributária.

Trabalhista?
É algo a ser pensado.

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Antonio S. Silva é professor de Jornalismo da UFMT - Campus Araguaia.

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