por Gustavo Gindre
Acompanhei de perto o trabalho que o Mídia Ninja fez nas
manifestações de junho/julho no Rio de Janeiro e vi a importância da sua
cobertura. Assisti a coragem desses jovens, dispostos a fazer um relato em
tempo real das ações violentas de nossa polícia. Como tantos brasileiros, vi
inúmeras mentiras oficiais serem desmentidas por reveladoras imagens geradas
pelo Mídia Ninja. Também foi fantástico ver como a grande mídia teve sua
parcialidade exposta pelo simples contraste com a cobertura em tempo real dos
ninjas.
Em grande parte o Mídia Ninja é consequência de dois fatores que
se somam para construir a mais radical transformação que se abate sobre a mídia
tradicional.
De um lado, o cenário de convergência tecnológica vai tornando a
Internet um ambiente multimídia que fagocita as demais mídias. A inerente
interatividade da Internet coloca em xeque os modelos unidirecionais da grande
mídia. E, ao mesmo tempo, embora não elimine as assimetrias entre grandes
grupos econômicos e pequenas experiências colaborativas, a Internet permite que
todos possam postar seus próprios conteúdos, ameaçando o oligopólio da grande
mídia. Essa parece ser a lição que a bancada do Roda Viva não entendeu.
De outro lado, esse cenário de convergência expôs de uma maneira
inevitável os problemas de gestão das empresas familiares que controlam a mídia
no Brasil. Com a convergência não é mais possível jogar a sujeira para baixo do
tapete e vai ficando cada vez mais evidente que quase todos os grandes grupos
de mídia do Brasil estão na bacia das almas, falindo, vendendo patrimônio e
diminuindo de tamanho.
É nesse contexto que surgem o Mídia Ninja e diversas outras
experiências de mídia colaborativa.
Euforia
Contudo, há que se controlar a euforia. O Mídia Ninja não é a
resposta para todos os problemas gerados pelo oligopólio da grande mídia. Eles
não são nem mesmo a resposta completa para o desafio de construirmos um
jornalismo realmente democrático. Aliás, seria muito injusto cobrar-lhes algo
desta envergadura.
Há pelo menos dois grandes desafios que o modelo de jornalismo do
Mídia Ninja não consegue responder.
Quando eu ainda ouvia rádio FM, lembro que uma estação jovem do
Rio de Janeiro fazia entrevistas na rua com perguntas estapafúrdias como o que
o entrevistado achava do efeito estufa como critério de desempate na Copa do
Mundo. E as falas postas no ar mostravam pessoas levando a sério aquelas
perguntas e buscando oferecer respostas igualmente sérias. Minha hipótese é que
o mundo tem ficado cada vez mais complexo, há cada vez mais informação
disponível e a grande maioria é totalmente irrelevante. Encontrar sentido nessa
barafunda não é tarefa simples.
A grande mídia nasceu e cresceu nos vendendo um serviço de
construção de sentido nessa massa crescente de informações. Claro que o sentido
que nos vendem traz embutido uma profunda orientação ideológica.
Nem poderia ser diferente.
Ora, uma mídia democrática não deveria nos imputar um sentido
único para os fatos. Mas, tampouco poderia abrir mão de tentar construir
sentidos possíveis. O jornalismo não pode abdicar do seu papel socialmente
relevante de construir cenários, analisar contextos, propor alternativas e
sugerir nexos causais. E isso a simples cobertura em tempo real não nos
fornece.
Muita informação sem contexto pode acabar sendo informação
nenhuma.
A grande mídia também cumpriu um importante papel de construir
pautas coletivas, que orientassem o debate na sociedade. Novamente, esse
serviço vem acoplado com uma visão de mundo conservadora, quando não
reacionária. Mas, não devemos jogar o bebê fora junto com a água suja. Essa
massa de mídias pode ser muito democrática, mas também pode nos empurrar para
um mundo de hiper-fragmentação ou, pior, de segmentação por nichos de mercado.
Assim, militantes ambientalistas consomem apenas informações sobre
meio-ambiente enquanto fãs do BBB sabem cada vez mais sobre seu reality show favorito
e cada um se isola no seu universo informativo. Sem negar a conquista da
interatividade e da oferta de informações segmentadas, resta o desafio de saber
como construir pautas coletivas a partir de um jornalismo democrático e
colaborativo.
Hipocrisia e uma questão para o debate
De uma hora para outra, um bando de jornalistas passou a estar
muito preocupado com a origem dos recursos do Mídia Ninja. Esses mesmos
jornalistas jamais levantaram sua voz para criticar os empréstimos de pai para
filho que sucessivos governos fizeram à grande imprensa brasileira. Ou ao fato
da TV Globo ter surgido a partir de dinheiro recebido ilegalmente, vindo da
norte-americana Time Life. Ou de como políticos lotearam entre si as outorgas
de TV em boa parte do país. Ou ainda à venda de 30% da Abril para o grupo de
mídia que deu sustentação ao apartheid sul-africano. Seu obediente silêncio de
antes contrasta com o falatório de hoje para demonstrar o tamanho de sua
parcialidade em favor de seus patrões.
Por outro lado, há tempos militantes da cultura criticam o
Circuito Fora do Eixo (berço do Mídia Ninja) pela suposta contradição entre seu
discurso em busca de alternativas para a produção cultural e sua dependência
dos mecanismos de renúncia fiscal e dos editais estatais. Esse me parece ser um
debate fundamental, não apenas no que se refere ao Fora do Eixo, mas, de uma
forma mais ampla, para sermos capazes de entender como o fomento influencia a
cultura produzida.
Via Blog
do Gindre
