Não existe amor em 3D


por Tomás Chiaverini*

Domingo passado fui assistir ao Homem de Aço. Cento e quarenta minutos de explosões, prédios desabando, destroços e rajadas de energia saltando sobre a plateia mastigadora de pipoca ensebada. Saí do cinema zonzo, cabeça doendo, com a nítida impressão de que, se continuar por esse rumo, o tão amado 3D vai acabar de vez com o cinema.

Meu primeiro contato com o Super-Homem foi numa telinha de 14 polegadas. Sessão da Tarde: Superman II – A Aventura Continua. Deve ter sido no final da década de 1980, eu estava então com meus sete ou oito anos. 

Lembro que a coisa ia bem até que o Super-Homem, completamente apaixonado por Louis Lane resolve abrir mão dos poderes. Para amar uma mortal é obrigado a tornar-se mortal também. Entra num esquife de gelo que mantém na Fortaleza da Solidão (seu esconderijo no Polo Norte) e sai de lá um homem comum. Que ideia...

Na volta para Metrópolis, provavelmente em algum lugar próximo ao Alasca, o casal, agora obrigado a viajar de carro, para numa lanchonete de beira de estrada. Um valentão se mete a besta com Louis, Clark vai protegê-la e acaba vergonhosamente espancado. Apanha feio, sangra, é humilhado em público e diante da mulher que ama.

Aquilo foi demais pra mim. Saí correndo da sala aos prantos e me tranquei no banheiro, inconformado com a sova que os roteiristas tiveram coragem de aplicar no pobre do Super-Homem. Só concordei em ver o resto do filme depois que meu pai, gritando do outro lado da porta, garantiu que Kal-El voltaria a voar, ver através das coisas e derreter revólveres com sua visão de calor. 

Outro dia vi esse filme de novo. Não é dos melhores. Mas a surra na parada de caminhoneiros é realmente muito forte. Christopher Reeve era um homenzarrão enorme e delicado, com uns olhos azuis que exalavam bondade e autoconfiança. Quando seu Super Homem levanta do chão, amparado por Louis, vendo o próprio sangue pela primeira vez, é como uma criança descobrindo toda a dor e perversidade do mundo.

No fim do filme, claro que Clark volta à mesma biboca, dá uns sopapos no valentão e aquilo nos enche de felicidade, e lá está a catarse que tantos espectadores fascinou ao longo dos séculos. E é isso que os roteiristas do 3D (e do cinema de ação em geral) estão perdendo. É impossível ter duas horas e meia de catarse.

General Zod derrubando um prédio com a cabeça do Super Homem é impactante. Dois prédios, ok. No terceiro prédio a gente já não aguenta mais, já ficou claro que aquilo vai longe e que não está surtindo efeito, e daí pra frente o barulho das explosões em Surround 5.1 só serve pra machucar os ouvidos.

Um exagero que talvez seja reflexo do nosso tempo. Precisamos de mais, cada vez mais. Mais dinheiro, mais carros, mais comida, mais bebida, mais mulheres, consumir e consumir, e mais efeitos especiais, mais explosões, mais vida, viver e viver para esquecer a morte. 

A publicidade está o tempo todo lá, nos dizendo que tem de ser tudo agora, e muito, e rápido, porque a vida passa. E no Facebook, aquelas pessoas todas, todas lindas se fotografando com os beicinhos mais incríveis, e vivendo tanto, viajando, comendo e namorando, enquanto a você só resta um cineminha besta. Então se for cinema, tem de ser uma experiência, e se vai ter explosão tem de ser a explosão mais incrível da história.

E no meio de tudo isso as coisas delicadas – o olhar tão humano de Clark Kent depois da primeira surra – acabam se perdendo. Pode ser. Ou pode ser apenas que eu esteja velho demais para assistir a filmes de super-herói.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha


Via Nota de Rodapé

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