COBERTURA DOS PROTESTOS Os culpados de sempre

por Por Carlos Brickmann em 25/06/2013 na edição 752 do Observatório da Imprensa
No clássico final de um filme clássico, Casablanca, um oficial alemão é morto a tiros quando tentava impedir a decolagem do avião que levava a deslumbrante Ingrid Bergman e Paul Henreid (no papel de líder da resistência tcheca ao nazismo). O chefe de polícia, interpretado por Claude Reins, tinha visto o herói do filme, Humphrey Bogart, matar o oficial alemão. Mas poupou-lhe a vida: determinou aos policiais que prendessem os suspeitos de sempre.
O clássico final de um filme clássico se transformou num hábito: haja o que houver, os culpados são os suspeitos de sempre. Os meios de comunicação, simultaneamente, apoiaram o PT e seus aliados e ficaram ao lado dos inimigos do PT nas manifestações dos últimos dias; ambos os lados hostilizaram a Rede Globo e tentaram impedir o merecidamente respeitado Caco Barcellos de fazer a cobertura de um dos protestos, a polícia feriu 15 jornalistas (um está seriamente ameaçado de perder a visão de um dos olhos, outra levou um tiro de bala de borracha no rosto e, ao que tudo indica, só não ficou cega porque os óculos que usava lhe ofereceram alguma proteção). A repórter Giuliana Vallone, que levou o tiro no rosto, estava totalmente identificada, com crachá e tudo; outros fotógrafos usavam todo aquele equipamento que caracteriza os fotógrafos, o que inclui colete cheio de bolsos, com tiras refletivas, e imensas câmeras. A PM os atacou assim mesmo.
Um carro da Record e um do SBT foram incendiados, dois carros da Bandeirantes foram depredados. A Globo preferiu fazer a cobertura com base em imagens de seus helicópteros, com repórteres em lugares protegidos.
Vândalos, bandidos? Sim, havia esse tipo de gente misturado às manifestações (tanto que, quando tiveram oportunidade, invadiram e roubaram lojas), mas não eram os únicos inimigos da imprensa. A paranoia chegou a tal ponto que, no Facebook, houve quem acusasse a Globo de “ser petista”, de ser “notoriamente petista” e de estar “a serviço do PT”. Patrícia Poeta, que ancorou boa parte das reportagens, foi classificada de “petista radical”. E também havia quem atribuísse o viés antigovernista das manifestações ao “trabalho golpista da imprensa” e defendesse a censura – quer dizer, uma lei de controle social da mídia. Ou, em bom português, “Ley de Medios”, copiando servilmente até o nome do esquema argentino de censura adotado pela presidente Cristina Kirchner.
E daí? Daí que todos os lados deixaram de perceber que sua maior garantia de segurança, nos confrontos, era exatamente o trabalho dos meios de comunicação. Bloquear o trabalho da imprensa equivalia a bloquear seu próprio acesso aos meios para transmitir à população os pontos de vista de sua facção; pior, equivalia a entrar nos confrontos sem testemunhas, no escuro, sem a proteção da transparência e da publicidade dos fatos.
Enfim, isso é coisa antiga. O problema é que, em manifestações que pretendem mudar o Brasil, esse velho ranço mostra que o moderno ainda vai demorar a chegar. Mais

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