Lei Maria da Penha completa 20 anos com a necessidade de reforço permanente das campanhas de conscientização
Justiça
João Rocha
A Lei Maria da Penha completou
20 anos no mês passado, período marcado pelas ações de conscientização e
combate à violência contra a mulher.
Sancionada em 7 de agosto de 2006, a Lei Maria da Penha assegura direitos a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, incluindo as mulheres trans. A legislação também não exige que o agressor seja homem, a violência praticada em uma relação homoafetiva entre mulheres pode resultar na aplicação da Lei Maria da Penha.
| Delegada Ana Carolinne Lacerda, da Delegacia Especializada de
Defesa da Mulher (DEDM) de Barra do Garças (MT) - imagem reprodução. |
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A Agência Focaia conversou com
delegada da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher (DEDM) de Barra do
Garças (MT), Ana Carolinne, para entender como funcionar a lei, os
procedimentos realizados pela polícia e a importância das campanhas de
conscientização no combate à violência contra a mulher.
Agosto Lilás e a conscientização
A delegada destaca a
importância do Agosto Lilás no enfrentamento à violência doméstica, mas
ressalta que as ações de conscientização não devem se limitar ao mês de agosto.
Neste ano, a Operação Mulher
Segura foi ampliada e será realizada de julho a dezembro. Segundo a delegada,
durante esse período serão promovidas ações de conscientização e medidas para
dar mais agilidade aos procedimentos relacionados à violência doméstica, com o
objetivo de proteger as vítimas e evitar que se repita.
A delegada também destaca a
importância de levar a conscientização para crianças e adolescentes. Para ela,
a educação desde os primeiros anos pode contribuir para combater a cultura do
machismo e prevenir a violência doméstica no futuro.
"É a partir da formação
dessa juventude que a gente consegue formar um caráter mais no sentido de
evitar essa cultura de machismo, do patriarcalismo, essa diferença estrutural
que a gente tem aí há tantos anos", afirma a delega.
| Imagem reprodução. |
Aumento dos casos de violência
Desde 2023, houve um aumento
considerável no número de registros de violência contra a mulher, não só no
estado do Mato Grosso, mas em todo país. Como afirma a delegada, esse
crescimento não está necessariamente relacionado apenas ao aumento dos casos de
violência
Ela aponta que a ampliação das
campanhas de conscientização, dos canais de denúncia e das formas de acesso à polícia
contribuíram para que mais mulheres pudessem procurar ajuda.
Entre as mudanças está a
possibilidade de registrar ocorrências, fazer denúncias, inclusive de forma
anônima, e solicitar medidas protetivas pela Delegacia Digital.
"Tudo isso deu mais
facilidade para que a mulher faça essa denúncia e peça ajuda. Então creio que é
uma reunião de ações que fizeram com que houvesse essa crescente no número, não
só que tenha realmente aumentado o número de violência não", afirma a
delegada.
Atendimento às vítimas
Ao procurar a Delegacia da
Mulher, a vítima passa inicialmente por um acolhimento reservado. Em seguida
ela é encaminhada para uma oitiva com o escrivão de polícia e por fim registra
a ocorrência.
As vezes dependendo da
situação a mulher é encaminhada para um atendimento psicossocial ou
psicológico, especialmente quando ela está muito abalada.
Segundo a delegada, muitas
vítimas, no entanto, acabam procurando a delegacia quando já estão em uma
situação de muita vulnerabilidade.
Nesses casos, além do registro
da ocorrência, a polícia verifica se há interesse em uma medida protetiva de
urgência. Quando solicitadas pela vítima, as medidas são encaminhadas ao
Judiciário para análise e podem incluir o afastamento do agressor do lar, a
proibição de contato e monitoramento eletrônico.
A delegacia também avalia
outras necessidades da vítima, como a retirada de pertences do lar,
encaminhamento para locais de acolhimento, atendimento médico e exame de corpo
de delito.
Quando a vítima é de outra
cidade, também pode ser feito o seu encaminhamento para o município de origem.
Segundo a delegada, esse atendimento conta ainda com a atuação integrada da
rede de proteção às mulheres.
Medidas protetivas
Após os procedimentos
iniciais, a solicitação de medida protetiva é encaminhada ao Judiciário, que
deve analisar o pedido em até 48 horas. A medida pode determinar o afastamento
do agressor do lar e a proibição de contato com a vítima e seus familiares.
Também podem ser determinadas
outras formas de proteção à vítima, como restrições relacionadas ao patrimônio,
acompanhamento pela Patrulha Maria da Penha e monitoramento do agressor,
dependendo da situação.
A delegada ressalta que a
medida protetiva só entra em vigor após a decisão judicial e a comunicação das
partes. A partir desse momento, se o agressor descumprir as determinações, ele
pode responder por um novo crime, previsto no artigo 24-A da Lei Maria da
Penha.
"Pediu a medida, a gente
tem que aguardar o deferimento pelo judiciário e a ciência das partes. Após o
deferimento, tanto vítima quanto agressor são cientificados, é a partir desse
momento que vai ter vigência essa medida", explica a delegada.
Segundo ela, além do crime de
descumprimento da medida protetiva, o agressor também pode responder por outros
crimes caso pratique novas ações contra a vítima.
Sinais de um relacionamento
abusivo
A delegada também chama
atenção para sinais que podem indicar o início de um relacionamento abusivo,
como ciúme excessivo, controle sobre as roupas, isolamento de amigos e
familiares. Segundo Lacerda, essas atitudes podem aumentar gradualmente e
dificultar que a vítima peça ajuda.
Outro sinal apontado são as
humilhações, inclusive em público, que podem inicialmente ser interpretadas
como brincadeiras, mas que tendem a se intensificar com o tempo.
A delegada orienta que as
mulheres fiquem atentas a esses comportamentos e procurem ajuda ao identificar
sinais de um relacionamento abusivo.
Segundo a delegada, sair de um
ciclo de violência pode ser difícil e, em alguns casos, a vítima pode passar
por ele várias vezes antes de conseguir romper definitivamente.
"A gente tem situações de
que até 7 vezes a vítima passando por esse ciclo de violência que ela consegue
realmente se desvencilhar, então ela precisa identificar esses sinais e tentar
ali já de pronto pedir ajuda ou se desligar mesmo desse relacionamento",
explica a delegada.
Como buscar ajuda com
segurança
Perguntada sobre como a vítima
pode procurar ajuda sem se colocar ainda mais em risco, a delega orienta que a
vítima não avise o agressor de que pretende denunciá-lo e se for possível que
consiga reunir uma rede de apoio segura.
Ela recomenda avisar
familiares ou pessoas de confiança sobre a situação e guardar mensagens, fotos
e outros elementos que possam ajudar no atendimento.
A delegada ressalta. que a
mulher não precisa ter provas para procura ajuda. Segundo ela, esses registros
podem apenas contribuir para o atendimento e para a adoção das medidas
necessárias.
Entre as formas de proteção
está medida protetiva de urgência. A delegada afirma que muitas mulheres ficam
em dúvida se deve solicitá-la por medo de sofrer novas agressões após o
agressor ser informado, porém destaca que os casos de violência posterior ao
pedido são pouco frequentes em comparação com número de medidas em vigor.
"E se for uma situação de
mais urgência, que está acontecendo ali um crime naquele momento, que ela está
sofrendo uma violência de imediato, a orientação é acionar o 190 para que haja
ali, em sendo o caso, a prisão em flagrante desse agressor", avalia a
delegada.
Desafios enfrentados
Para Lacerda, um dos
principais desafios no enfrentamento à violência doméstica é garantir
atendimento em tempo hábil e o acompanhamento das vítimas após o primeiro
atendimento. Segundo ela, a alta demanda dificulta que todos os casos sejam
atendidos com a rapidez necessária.
Apesar disso, afirma que a
equipe tem buscado atender o maior número possível de vítimas e atuar também em
ações de conscientização e prevenção da violência doméstica.
"Infelizmente, a demanda é alta, então não é possível, às vezes, o atendimento tão de pronto e tão célere quanto a gente gostaria. Mas a gente tem feito o máximo para que consiga atender o máximo de vítimas", afirma.