Pesquisadores da UFMT realizam testes em Fruto do cerrado na produção industrial de embalagem ambiental e tratamento do diabetes

Ciência

João Rocha

 

Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), do Campus Araguaia, desenvolvem estudos sobre o potencial do pequi, fruto típico do Cerrado, tanto na área da saúde quanto na inovação sustentável. Como resultado deste trabalho surgem produtos como a embalagem Biodegradável, comparável às embalagens convencionais, e em teste do óleo com potencial de redução da glicemia e em aspectos relacionados à diabetes.

 

 

Pesquisadores realizam experimento em óleo de pequi na redução
da glicemia e melhora em aspectos relacionados à diabetes no
tratamento da diabetes - Imagem divulgação.




O estudante da Pós-Graduação em Ciência de Materiais da UFMT, Gabriel Cardoso, descreve que as pesquisas sobre as embalagens a partir do pequi foram iniciadas em 2023, sob orientação da professora Paula Becker Pertuzatti Konda, que depois repassou a responsabilidade ao mestrando para dar continuidade à pesquisa e executar as etapas experimentais.


O pesquisador afirma que há desafios na execução do projeto, sobretudo na realização das atividades de mestrado, quando o estudante tem dois anos para a conclusão do curso, o que exige planejamento rigoroso e organização constante.

 

No caso do pequi, como é um fruto sazonal, é preciso esperar o período da colheita, realizar a extração, o que demanda equipamentos específicos e logística adequada. As pesquisas também necessitam articulação com outras instituições com vistas a resultados precisos e completos.

 

Como o projeto depende de financiamento, necessária a busca de agências de fomento. A pesquisa realizada por Cardoso recebe apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat).

 

Embalagens biodegradáveis


O primeiro resultado da pesquisa apresentada sobre o pequi é a embalagem biodegradável, com potencial para alcançar o nível industrial. Trata-se de um material funcional, comparável às embalagens convencionais, disponíveis no mercado, mas com o diferencial da sustentabilidade ambiental.


Estudante Gabriel Cardoso durante pesquisa em laboratório
da UFMT Araguaia - imagem divulgação.


Conforme Cardoso, a utilização de matéria-prima regional, como o pequi, tende a fortalecer a cadeia produtiva local e estimular a chamada economia verde, especialmente em áreas do Cerrado onde o fruto já integra a atividade de produtores rurais. 

 

Ele destaca ainda que, com investimentos adequados e estrutura industrial, a embalagem poderia ser comercializada tanto no mercado regional quanto em âmbito nacional, ampliando os benefícios ambientais e econômicos da proposta.

 

Óleo de pequi no tratamento do diabetes

 

Em outra linha de trabalho na exploração do fruto do cerrado, quanto ao óleo de pequi no tratamento na redução da glicemia, teve início a partir no programa de pós-graduação em imunologia e parasitologia básicas e aplicadas (PPGIP), no ano de 2023, com pesquisa desenvolvida pela pesquisadora Thais Campos, com a coorientação do autor do projeto o prof. Paulo Roberto e orientação do prof. Gustavo Tadeu Volpato. Segundo ela, todo o processo, desde a elaboração do projeto até os experimentos com animais, levou cerca de dois anos. 

 

De acordo com a pesquisadora, trata-se de um estudo inédito, já que não há pesquisas semelhantes realizadas durante o período gestacional. Diante dessa lacuna, os pesquisadores testaram um tratamento com óleo de pequi em ratas diabéticas gestantes, com o objetivo de analisar os efeitos da substância. 

 

Ela destaca que, em um estudo anterior, já havia sido observado o potencial do óleo na redução da glicemia e em aspectos relacionados ao diabetes. No entanto, ainda não havia investigações envolvendo fêmeas gestantes, o que motivou a nova fase da pesquisa. Contudo, como avalia, “para que um medicamento chegue à sociedade, são necessários anos de estudo.”

 

O processo começa com a investigação das propriedades do fruto e de seus compostos bioativos. Em seguida, são realizados testes experimentais, que podem ocorrer em células ou em modelos animais, antes que qualquer aplicação em humanos seja considerada. Atualmente, o estudo ainda está na fase experimental com animais, considerada fundamental para avaliar segurança e eficácia.

 

Campos destaca que os resultados obtidos até o momento indicam que o óleo de pequi apresenta potencial antidiabético, com redução da glicemia e melhora em aspectos relacionados ao diabetes, especialmente no período gestacional. Ela explica que a gestação é uma fase sensível, em que a diabetes pode provocar complicações e até malformações.

 

Durante a pesquisa, observou-se que o óleo também apresentou efeitos positivos na reprodução, reduzindo a incidência de alterações observadas em ratas diabéticas. “Os resultados apontam indícios de segurança durante o período gestacional”, afirmou.

 

Apesar dos avanços, a pesquisadora ressalta que ainda há um longo caminho pela frente. As próximas etapas incluem análises mais aprofundadas sobre os efeitos do composto no organismo e a ampliação dos estudos. Somente após um tempo considerável de investigação, que podem ultrapassar cinco anos, dependendo do caso, é que se pode considerar a realização de testes em humanos.

 

No entanto, a pesquisa já rende frutos. Conforme a pesquisadora, o projeto obteve reconhecimento internacional. No ano passado, ela apresentou o projeto em um congresso mundial realizado na Argentina, voltado a pesquisas sobre os impactos da gestação na vida adulta. O evento reuniu especialistas de diversos países, como Coreia do Sul, Estados Unidos e Japão.


 

Professor Gustavo Tadeu Volpato (esquerda) ao lado da
pesquisadora Thais Campos em congresso realizado na
Argentina - Imagem divulgação.

  

Valorização do Araguaia


Sobre a importância das descobertas, os pesquisadores destacaram o impacto científico e regional dos estudos. Cardoso ressalta que o avanço da biotecnologia e da tecnologia tem ampliado as possibilidades de inovação, e que a pesquisa contribui não apenas para o campo científico, mas também para a valorização da região.

 

O uso do pequi como matéria-prima, segundo ele, reforça a riqueza do Cerrado e evidencia que a produção científica não está concentrada apenas nos grandes centros. “O estudo mostra que pesquisadores estão em todas as regiões do Brasil e do mundo. Aqui em Barra do Garças também há um grande potencial de pesquisa, que precisa ser cada vez mais reconhecido e valorizado”, destaca.

 

Campos, por sua vez, enfatiza que a pesquisa do pequi ganha ainda mais relevância por utilizar um fruto típico da região e por investigar seu potencial durante a gestação, um período considerado delicado e que exige atenção especial à saúde da mãe e do bebê.