Após repercussão de ‘lista de alunas estupráveis’ no Campus Cuiabá, UFMT Araguaia realiza debate sobre o comportamento masculino

Universidade


Francisco Lucidio

Colaborador

 

A Universidade Federal do Mato Grosso, Campus Universitário do Araguaia (UFMT/CUA), realizou nesta terça-feira (26), na sala de cinema I do campus de Barra do Garças, debate sobre padrões de comportamento masculino, que resultam em posicionamentos agressivos e violentos contra as mulheres. A iniciativa é consequência de lista descoberta na UFMT do Campus de Cuiabá que classifica alunas como “estupráveis”.

 

O evento foi organizado pelo Centro Acadêmico de Direito (CAD) e Diretório Central dos Estudantes (DCE), com mesa de trabalho ministrada pelo juiz de direito Marcelo Melo. Em questão “até quando você vai viver provando que é homem?” que serviu de base para a discussão com a comunidade acadêmica.


 

Discentes participantes de palestra sobre comportamento machista, ao lado do magistrado

 Marcelo Melo, para quem o machismo e a violência contra as mulheres são consequências 

de causas negligenciadas pela sociedade – imagem reprodução.





Lista de “estupráveis”

 

A Polícia Civil de Mato Grosso investiga a lista que foi criada por dois alunos dos cursos de direito e engenharia civil, caso que veio à tona no último dia 4 de maio, denunciado pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da UFMT de Cuiabá. 


Esse é o segundo caso de violência contra mulher na UFMT do campus que chega a público com grande repercussão em menos de um ano. Em julho de 2025 o corpo de Solange Aparecida Sobrinho foi encontrado em uma área desativada da universidade, com sinais de estrangulamento. De acordo com familiares, ela tinha diagnóstico de esquizofrenia e frequentava o campus mesmo não sendo aluna.

 

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e Anuário Brasileiro de Segurança Pública (ABSP) de 2026, o Mato Grosso está entre os estados com as maiores taxas de feminicídios no Brasil dos últimos anos, abaixo somente do Acre e de Rondônia, conforme a pesquisa Retrato dos Feminicídios no Brasil.

 

O debate voltado principalmente aos homens teve a participação também das mulheres e reuniu 112 alunos. De acordo com Camily Coelho, de 19 anos e Coordenadora Geral do Centro Acadêmico de Direito, a luta contra a violência de gênero não deve ser apenas da parte feminina.

 

“Esse é geralmente o foco principal, geralmente direcionamos a conscientização apenas para as mulheres. Mas isso é algo que afeta a sociedade como um todo. Então fazer essa palestra voltada para todos, não só para o grupo feminino, é de grande importância”.

 

Comportamento estrutural

 

Para o palestrante Marcelo Melo o machismo e a violência contra as mulheres são as consequências de uma causa negligenciada. Ele expõe o conceito de masculinidade como o conjunto de atributos e papéis geralmente associados a homens, aprendido e construído socialmente desde a infância, a partir de instituições como a família, mídia, religião e trabalho.

 

O magistrado argumenta que as instituições não tratam os efeitos do machismo para o próprio homem, trazendo como consequência da pressão colocada nos homens, durante toda sua vida, a negligência de tratamento psicológico. Apesar de eles têm maior taxa de morte em comparação a mulheres, não reconhecem efetivamente as próprias doenças físicas e emocionais.

 

De acordo com Melo, existe uma escassez de espaços para debate sobre masculinidade de homem para homem. “Se o homem não cuida de si, como vai cuidar da família, dos filhos e das pessoas que dependem dele?”, questiona.

 

Como analisa Melo existe uma agressividade como estilo de vida na formação cultural dos homens, e que da mesma forma que a masculinidade pode ter viés nocivo para as mulheres, têm uma origem tóxica também para os homens.

 

“A gente precisa atuar naquilo que é a causa, naquilo que gera a violência, que é essa masculinidade mal trabalhada, mal construída, com valores inadequados. Atuar nessas duas frentes, protegendo mulheres e mudando perspectivas masculinas”, afirma Melo.

 

Segundo a pró-reitora da UFMT do Campus Araguaia, Paula Carvalho, a palestra para tratar sobre o tema “é positiva para desmanchar uma cultura masculina arcaica de violência, da mulher ser um objeto a ser manipulada e controlada. Traz essa reflexão para os nossos alunos aqui do campus e salienta que as pró-reitorias não aceitam nenhum tipo de violência no âmbito do campus”.