UFMT decidirá nesta segunda-feira sobre o retorno das aulas a distância; estudantes e professores questionam a proposta
Política
educacional
Agência Focaia
Reportagem
Izadora Viana
Sara Ribeiro
Os estudantes e professores da UFMT
seguem debatendo a questão do ensino a distância, durante o isolamento social.
Muitos são contrários à medida, por entender que há falta de estrutura
institucional, a perda de qualidade do ensino e poderá resultar em exclusão de
estudantes das atividades nas salas virtuais, aqueles que não tenham
computadores e acesso à internet ou com a velocidade exigida. O impasse deverá
ser solucionado na reunião do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CONSEPE)
desta segunda-feira (8), quando se decide pela flexibilização ou não da oferta
de disciplinas por meio de recursos virtuais, durante a pandemia da COVID-19.
Nas universidades brasileiras há o
debate a respeito da necessidade de dar continuidade ao ensino. Então, surgiu como alternativa vista pela comunidade acadêmica dar prosseguimento da graudação com estudos em casa
através de plataformas digitais e com ensino a distância (EaD)
O Ministério da Educação (MEC)
autorizou como uma forma de solucionar a problemática, em 18 de março, em
publicação no Diário da União (DOU), “a substituição de disciplinas presenciais
por aulas que utilizem meios e tecnologias de informação e comunicação, em cursos
que estão em andamento”.
Impasse sobre o retorno das aulas a
distância divide a comunidade acadêmica da UFMT.
Estudantes e professores questionam
a qualidade do ensino ministrado pela internet
- Imagem:
reprodução
Apesar disso, professores e discentes
de várias universidades públicas, como a Universidade Federal de Mato Grosso
(UFMT), têm sido contra a medida, optando por paralisar o período letivo. No
entanto, como medida para permitir o retorno às aulas, a universidade
mato-grossense vem debatendo a flexibilização das atividades da graduação, com
aulas virtuais, sem o rigor do EaD, com abertura para decisão dos cursos de aderirem
a proposta ou recusá-la.
Nesta proposta apresentada, apenas os
conteúdos teóricos ganhariam espaço na oferta acadêmica, cabendo aos estudantes
a decisão de se matricularem nas disciplinas ou recusarem a participar das
aulas oferecidas remotamente, obtendo a condição de ao retornar das atividades
presenciais, realizar todos os conteúdos, sem prejuízos. A medida fez surgir
amplo debate, a ser decidido pelo CONSEPE, em reunião na próxima semana.
Professores e estudantes se mostram
preocupados com a flexibilização das atividades acadêmicas na UFMT, com o ensino
a distância. Como destaca a presidente do DCE/CUA, Flavia Giordano, um dos
principais motivos é a falta de acesso à Internet por parte dos universitários.
Segunda ela, “os alunos que não
possuem acesso à Internet seriam totalmente excluídos de um ensino que é
direito deles, pelo qual eles ingressaram através do ENEM em modalidade
presencial”.
O posicionamento contrário do DCE do
Campus da UFMT Araguaia ao ensino a distância, teve como base a consulta aos
discentes, que são a sua base representativa. “A responsabilidade no âmbito do
ensino e aprendizagem é da Universidade Federal de Mato Grosso, é ela que
determina o que é proposto. Atualmente a proposta seria o ensino a distância,
proposta essa que não tem embasamento para a aplicabilidade, e, por isso, foi
amplamente rejeitada pelo corpo discente da instituição”, destaca Giordano.
Apesar da modalidade de aulas a
distância ter sido recomendada pelo ministro da educação, Abraham Weintraub,
grande parte dos universitários da UFMT, em contato pelo Focaia, se dizem contrários a esse método.
O estudante do quinto período de
Enfermagem Gabriel Aguiar, argumenta que não é favor do ensino a distância, “de maneira
alguma, é sem lógica estudar por meio de uma plataforma digital, não é a
mesma coisa. Ainda mais, diante de matérias tão complexas e difíceis que são
ofertadas pelo curso”.
A aluna do segundo semestre de
Engenharia de Alimentos, Gabriela Amorim, acrescenta que “a universidade não
tem uma estrutura adequada para esse tipo de ensino”. Além disso, avalia que
muitos discentes não possuem acesso à Internet e a computadores, o que tornaria
o ensino desigual e afetaria na qualidade do mesmo.
Flavia Giordano relata que “com base
nas falhas que já tivemos no sistema (AVA) durante as aulas presenciais, caso
não haja uma melhora nessa infraestrutura certamente encontraríamos problemas.
As quedas de Internet na cidade são frequentes e essa sobrecarga poderia
potencializar o problema”.
Ao se negarem a seguir a orientação do
ministério da educação, as instituições públicas se sustentam na Constituição
Federal de 1988, disposta no artigo 3º, inciso III, o qual determina como
objetivo fundamental da República Federativa do Brasil a redução de
desigualdades sociais. As instituições afirmam que o EaD desconhece a realidade
da composição do corpo discente da universidade.
Perguntada sobre a viabilidade do EaD
na UFMT,Campus Araguaia, a professora de Letras, Águeda Borges, diz que “fazer uso cotidiano e
primário das ferramentas tecnológicas é uma coisa, mas conhecer o
funcionamento, utilizá-lo e adaptá-lo para a produção do ensino é outra, e
constitui-se na exigência de uma mudança ampla, não é só de transporte de
conteúdo, mas de conceitos, implica a inserção numa outra cultura e requer
aprendizado”.
Na UFMT o primeiro semestre letivo de 2020, que
deveria ter começado no dia 13 de abril, foi adiado sem previsão de retorno,
diante da pandemia. Questionada sobre quais as preocupações do DCE em relação
ao ensino dos estudantes, Giordano disse que uma das grandes preocupações é com
relação a qualidade do ensino e sua acessibilidade.
“A única maneira de não atrasar o
calendário seria o EaD, mas e as centenas de alunos que seriam prejudicados por
essa medida? A educação é um direito de todos e mantemos essa preocupação em
relação ao cumprimento desse direito como nossa principal luta no momento”.
De acordo com a Constituição Federal
de 1988, a educação é direito de todos os cidadãos, nos artigos 6º da Carta
Magna, consagra-se o direito à educação como direito nacional e, no artigo 205,
está garantido que a educação é um direito assegurado constitucionalmente a
todos.
Em relação aos estudantes, a evasão é
uma das maiores preocupações das representações estudantis e docentes. A
preocupação é quanto à situação de vulnerabilidade dos discentes, dificultando
a permanência na universidade, “o impacto do vírus parte de diversos âmbitos e
é preciso analisar com profundidade as mudanças a curto e longo prazos que os
alunos virão a sofrer”, analisa a presidente do DCE/CUA.
A professora Luana Ramos, do curso de
Biomedicina afirma que “para alguns alunos, o acesso à uma boa Internet e a um
bom equipamento de informática, seja um celular ou um notebook, não é uma
realidade, então se ele não tem acesso a isso para poder acompanhar, e ele vê
essa demora em conseguir solucionar todo esse tempo parado, pode ser sim, que
muitos alunos desistam ou não tenham condições de voltar para o curso.”
Ela acrescenta que “muitas vezes o
aluno não vai ter mais tempo disponível para estar cursando o que ele se
matriculou, porque de repente, ele vai ter que trabalhar para ajudar em casa,
não é só pelo fato de ser EaD, mas por todo o contexto que isso está inserido”.
Os efeitos da pandemia do novo
coronavírus têm afetado não apenas a educação em todo o país, mas todos os
setores sociais. Tendo em vista os métodos adotados para controlar a doença,
muitos universitários se mostram preocupados, diante de uma rotina que mudou
rapidamente por conta da covid-19.
A professora Águeda ressalta que “não
é apenas a falta de aulas que afeta os estudantes, mas todo o contexto gerado
pela pandemia”.
Gabriel Aguiar, aluno de Enfermagem,
diz que “é muito dificultoso, pois toda vez que tento me concentrar, aparece
outros afazeres e os estudos vão ficando para segundo plano.” Ele ainda afirma
estar preocupado com o atraso na formação profissional, “estava com
expectativas criadas para me formar no final do ano que vem.”
Para a professora Luana “esse período
obviamente atrasa a formação dos alunos. Às vezes o aluno que já estava para se
formar ou com uma pós-graduação em vista, passa a ter os seus planos
frustrados, mas a gente tem que levar em consideração que muitas coisas estão
paradas”, destaca.
- Falta de acessibilidade dos alunos;
- Escassez de recursos tecnológicos e Internet de qualidade para acessarem conteúdos na modalidade a distância. Muitos alunos utilizam da rede de Internet e equipamentos do campus para a realização dos estudos e trabalhos acadêmicos;
- Falta de treinamento e formação adequada para os professores e equipamentos para adaptarem as aulas para o formato virtual;
- Atividades práticas que não podem ser ministradas no ensino a distância;
- Dificuldade no acesso ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), no qual serão desenvolvidas as aulas;
- Problemas técnicos e falta de informação adequada para realização do acesso de maneira correta, associados às quedas constantes da Internet na cidade;
- A saúde física e mental dos docentes e discentes, durante a pandemia; o retorno neste formato poderia levar a mais estresses, com aumento de ansiedade e desenvolvimento de quadro de depressão;
- A dificuldade de acesso por parte de pessoas com deficiência (PCDs), diante da falta de planejamento para uniformização e operacionalização em meios digitais;
- A não completude do quadro de ingressantes deste ano letivo e o ingresso dos futuros estudantes que irão entrar através do Sistema de Seleção Unificada (SISU).