Dicas de roteiro: a estrutura de três atos

 

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Para quem está começando uma história nova, o ideal é ter apenas três frases ou pedaços grandes: o começo, o meio e esperamos que um final.
A idéia agora é quebrar esses três blocos em pedaçinhos menores e encaixá-los no que chamamos de “Estrutura de Três Atos”.
Qualquer forma de entretenimento, cinema, quadrinho, TV, até livros, seguem essa clássica estrutura de uma forma ou outra, aliás, até a piada que o barbeiro (ou cabelereira) te conta segue essa estrutura:
Você prepara o terreno dando alguma informação inicial, pincela esta informação com algum detalhe supostamente importante e termina com o “twist”, o final surpreendente, revertendo o detalhe anterior. Vai lá, pode ver isso, eu espero.
É verdade que existem inúmeras obras que jogam a Estrutura de Três Atos pela janela com resultados bastante criativos e positivos mas eu garanto que o autor que faz isso conhece a fórmula de ponta cabeça e aí sim se sente confortável em não fazer uso dela ou fazer o inverso dela.
Aprenda o básico para depois inovar. Muitos trabalhos de iniciantes falham porque neguinho já quer sair escrevendo achando que é o Alan Moore da nova geração… tsk tsk.
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Aliás, nem sei se eu gostaria de ser o Alan Moore…. Mas enfim, voltando ao tema, a Estrutura de Três Atos funciona assim:

Começo                                    Meio                                            Final
Ato I                                             Ato II                                           Ato III
                     I                                                                  I                               ________
A Armação                           Confrontação                               Resolução

Os dois “breaks” que separam os três atos são chamados de Pontos de Virada (Plot Points) e são extremamente importantes, são eventos que chacoalham a sua história, as vidas dos principais personagens e empurra a trama principal para direções completamente diferentes. Além deles, toda história precisa ter um Clímax que acontece no meio da obra, seja ela HQ ou Filme. Tive um professor que insistia em dizer que uma boa estrutura de história deveria lembrar um chapéu de bruxa:
ThreeActStructureDiagram
O primeiro Ponto de Virada pega sua trama inicial e a faz escalar, ir aumentando a intensidade, os riscos, os perigos, até o climax que divide a sua história em duas, o meio. À partir daí sua história deve passar por outro twist, outro chacoalhão que surpreenda o público indo contra todas as expectativas estabelecidas na primeira metade, se encaminhando assim para o segundo Ponto de Virada e finalmente a resolução.
A estrutura acima é bastante consistente e pode ser encontrada na maioria dos filmes e histórias em quadrinhos.
Navegando de um ponto à outro dentro dessa estrutura básica é onde um escritor e roteirista tem a chance de ser criativo sem deixar seus personagens parecem bonecos sem alma apenas reagindo de forma mecânica. Pense comigo, ao invés de sair escrevendo e pensando no que acontece a seguir no melhor estilo “E aí bla bla bla, aí bla bla bla, e depois bla bla bla”, com uma estrutura te guiando você sabe exatamente quando um evento no Ato I vai se pagar em uma revelação bombástica no Ato III.
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Se estabelecemos que seu personagem é fera de videogames é porque no meio da sua história a sua habilidade com games vai influenciar a vida do personagem, seja de forma positiva ou negativa. Talvez por achar que joga bem videogame, o personagem acha que sabe atirar e acaba se metendo em uma enrascada… apenas um exemplo rápido que me veio à cabeça.
É muito importante ter uma “Outline”, uma lista dos principais pontos da sua história todinha, do começo ao fim, entrarei em detalhes à seguir. Mas mais importante ainda é desenvolver e bem seus personagens, exaustivamente até que se tornem pessoas reais aos seus olhos e do público, e aí sim colocá-los dentro da sua Outline, trabalhando um ritmo natural de história.
Desenvolvimento de personagens ficará para um próximo artigo…
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Pessoalmente eu gosto de combinar a estrutura clássica acima com uma Lista de Beats que aprendi com o roteirista Blake Snyder, autor do livro de roteiros “Save the Cat!”.
O que são Beats?
Essa eu deixo para meu bom amigo e professor de roteiros Thiago Fogaça explicar:
A menor unidade dramática. Dentro de cenas, cada ação que provoca reação ou mudança de valores é considerada um beat.
Esta definição e muitas outras, além de dicas, teorias e cursos de Roteiro do Thiago Fogaça podem ser encontradas no site dele:
A Lista de Beats do Blake Snyder é composta de 15 Beats, construindo assim a sua Outline.
Esta base de Outline serve excepcionalmente bem para quem estiver escrevendo um arco fechado de história seja em cinema ou quadrinhos. Preenchendo essa lista de forma correta e criativa lhe dá uma base para o seu roteiro que evita bloqueios ou que o autor acabe se perdendo em devaneios… É como se você tivesse dado um zoom no seu mapa para ver mais detalhes.
Seja o que estiver escrevendo, uma única edição ou uma mini-série em doze partes, tente encaixar sua história na Outline abaixo, estruturando assim o seu roteiro final. Vou explicar direitinho cada Beat da lista usando exemplos de Batman Begins e Star Wars.

A LISTA DE BEATS DE BLAKE SNYDER:

1. Abertura: Geralmente é a primeira impressão que seus leitores ou público vai ter da sua história. Precisa ser algo elemental que vai mostrar o tom da história. Se for uma comédia, começe com uma boa piada, se for uma história de terror, começe com uma imagem aterrorizante. Você só tem uma chance de causar uma impressão do que se espera da sua história, faça ela valer.
2. Estabelecendo o Tema: Qual é o tema da sua história? O que você quer dizer com ela? Este segundo é o PRINCIPAL de qualquer roteiro. Uma história precisa sempre ter um tema que as pessoas possam se identificar. Pode ser uma afirmação (amor não existe), pode ser uma pergunta (será que existe amor verdadeiro?) ou pode ser até algo mais profundo, alguma coisa que você queira gritar para o mundo!
Segundo Thiago Fogaça, tema é: “O que você quer discutir com o seu filme. Aquilo que é de mais pessoal. O que você realmente acredita e quer passar para o mundo. Seu filme é sua Tese. Prová-la discute seu Tema.
É preciso estabelecer o seu tema o quanto antes para que as pessoas possam ficar com ele desde o começo da história.
3. O Set-Up: A calmaria antes da tempestade que será sua história. Toda história precisa ter um impacto no seu público e aqui é onde vamos preparar o terreno, plantar elementos que será revistos lá na frente e trabalhados lá na frente. Aqui apresentmos os personagens, seus conflitos e mais importante, seus objetivos dentro da história.
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É aqui por exemplo que estabelecemos que o Batman é alguém muito rico que tem pais maravilhosos. É aqui nesse pedaço do roteiro que também estabelecemos o tema: “Porque caímos? Para aprendermos a nos levantar”. Ninguém aqui achou curioso que no começo do Batman Begins nós vemos a mansão dos Waynes, assistimos o Bruce roubando a pontinha de pedra da sua amiga, mostrando que o crime tem suas consequências já que logo em seguida ele despenca em um poço sendo aterrorizado por morcegos.
Em seguida, Thomas Wayne resgata seu filho e diz o tema em voz alta!!
Nada acontece por acaso… com cinco minutos de filme, olha quanta coisa os roteiristas estabeleceram!
E que fique claro que o tema permeia o filme inteiro em diversos pontos do filme, Gotham está em decadência (em queda) mas Bruce crê que ela pode se levantar o treinamento dele mostra Bruce caindo diversas vezes mas sempre se levantando, e por aí vai… TEMA É IMPORTANTE!!!!!!
4. Pré-Catalizador: TODA HISTÓRIA precisa de um Catalizador, e aqui você irá preparar ele para o seu público. Mais ou menos na metade do seu primeiro Ato, alguma coisa acontece que faz seu personagem sair da rotina, faz ele começar a pensar “Pera, o que vai acontecer agora?”. É aqui que o protagonista começa a ser preparado para embarcar na jornada que é a história adiante. No primeiro Star Wars é a chegada de R2D2 e C3PO com uma mensagem da Princesa Leia. Isto ainda não é a quebrada de Ato, o Incidente Incitante, é apenas um gostinho para o público e protgonista se preparar…
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5. Debate: É como seu(s) personagem(s) irá reagir ao Catalista. É o momento de reflexão, de decidir se embarca na aventura, se vai adiante com a história ou se fica na sua vidinha, na rotina. É quase um diálogo com o público mostrando o que houve e as consequências que podem vir a acontecer se o personagem principal seguir por este caminho.
Será que Luke Skywalker deve ir atrás de Obi-Wan ou será que é melhor ele ficar na fazenda dos tios? Mas se ele for atrás de Obi-Wan, ele estará desrespeitando o tio, e aí?
6. Quebra para o Ato II, Incidente Incitante: Aqui é quando a coisa pega, é um evento tão grande que não tem mais volta, a merda bateu no ventilador, o negócio é ir adiante. Ou em mais uma deinifição de Thiago Fogaça: “Também chamado de Disparo Dramático, é o catalizador da história. Algo acontece que vira a vida de seu protagonista de cabeça para baixo, afetando seus valores, seu mundo e/ou seus relacionamentos. Cria uma pergunta na cabeça da audiência que só será respondida no Clímax.
Os tios de Luke Skywalker são assassinados, agora não tem mais volta, o negócio é partir com Obi-Wan e não olhar para trás…
7. Sub-Trama ou História “B”: Geralmente é aqui que os relacionamentos entre personagens de uma história são desenvolvidos. Um romance em meio à uma grande aventura ou uma diferente faceta do seu tema colocado ali só para efeito de discussão.
No caso do Batman Begins, é a volta de Bruce Wayne à Gotham City e como ela afeta os relacionamentos de Bruce, principalmente com sua amiga de infância Rachel Dawes.
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Em Star Wars é o treinamento de Luke para se tornar um Jedi. A trama principal é impedir Darth Vader e sua Estrela da Morte, a sub-trama é o desenvolvimento de Luke e na manutenção da cultura Jedi.
8. Jogos e Diversões: É a parte mais tranquila da história, onde a criatividade pode rolar solta e se ver um pouco livre da estrutura. É aqui que o protagonista(s) parte atrás do objetivo principal da trama e onde o autor e roteirista pode criativamente colocar obstáculos e adversidades das mais variadas para impedir o sucesso do personagem principal.
No filme Batman Begins vemos todo o seu treinamento e primeiras aventuras como Batman antes do Espantalho entrar em conflito direto com ele.
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9. Meio da História (Clímax): Outra grande mudança na sua história. Se você indicava que se encaminhava para uma direção “X”, aqui você vai inverter tudo e sua história começa a se  direcionar para “Y”. Segundo o autor Blake Snyder, este ponto pode ser uma “Falsa Vitória” ou uma “Falsa Derrota”, ou seja, parece que o protagonista atingiu seu objetivo mas na verdade não é nada disso, o mesmo acontece da forma contrária. Pode parecer que está tudo perdido mas não, existe um raio de esperança, uma nova solução a ser buscada.
Em Star Wars, tudo parece perdido quando Darth Vader mata Obi-Wan e a Estrela da Morte continua intacta. Em Batman Begins, o Espantalho é capturado e o plano dele descoberto, parece que Batman venceu… pois só parece porque logo em seguida Ra´s Al Ghul chega arrebentando tudo e mostrando quem é “O” vilão do filme.
10. Os Vilões tomam a Dianteira: Parece que os vilões ou antagonistas estão cada vez mais próximos do sucesso e os heróis ou protagonistas estão em situação cada vez pior, cada vez mais encurralados.
Em uma comédia romântica, esta etapa seria quando o relacionamento começa a ter problemas ou eventos começam a acontecer que impeçam o casal de ficarem juntos.
Em Star Wars, a Estrela da Morte se posiciona para destruir a base Rebelde.
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11. Tudo Perdido: Bem, o nome diz tudo… é quando os vilões estão vencendo e os heróis sem absolutamente nenhuma perspectiva de virarem o jogo. Quanto mais enfiados na lama, melhor, quanto maior o buraco que o roteirista enfiar seus personagens, maior será a surpresa quando eles conseguirem sair.
Quando o público não consegue ver nenhuma saída para o personagem principal, é aí que você tem eles na mão para surpreender com uma solução incrível.
Apelando para Batman Begins outra vez, Bruce é abandonado em sua mansão em chamas e sem perspectiva de se recuperar para impedir os planos maléficos de Ra’s Al Ghul.
12. A Noite mais Densa: Mesmo diante de seus esforços, a situação do herói piora, é o momento mais desesperador da trama. Não basta enfiar seu protagonista em um buraco, é preciso enterrá-lo vivo, aí sim fica um desafio para o personagem se reerguer como verdadeiro herói de sua história.
13. Quebra para o Ato III (ponto de virada): A última surpresa, última carta na manga, a maior surpresa.
O público acredita saber como a história vai terminar, mesmo que elas esperem um final feliz, é a função do roteirista surpreendê-los. Como toda comédia romântica termina com o casal ficando juntos, o interessante aqui é ver como isso acontece.
Ou mesmo sabendo que o herói (quase sempre) vence o vilão, que o mal sempre perde, como você fará isso na sua história? Como o seu personagem irá se superar e virar o jogo, finalmente alcançando seu objetivo principal? De onde ele buscará forças?
Por isso que é legal enfiá-lo na pior situação possível, porque quanto mais díficil achar uma solução, mais surpreendente ela será.
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14. Final: Aqui é onde amarramos todas as pontas soltas, respondemos todas as perguntas que ainda sobraram e onde resolvemos a “história B”. Seria aqui que o herói fica com a mocinha.
15. Imagem Final: Aqui é a oportunidade de deixar seu público com uma imagem clássica e que geralmente espelha a inicial, remete ao começo da sua história. É a sua despedida com seu público.
Quando eu digo espelhar a inicial, não digo reproduzí-la com algo diferente mas sim espelhar o início do filme tematicamente.
Em Batman Begins, começamos com o pequeno Bruce caído e terminamos com a imagem do Batman de pé, sobre a cidade de Gotham.
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Toda vez que começo uma nova história, eu pego essa listinha de 15 pontos e vou preenchendo eles um a um, me certificando que minha história respeite a estrutura.
Acho minha imagem inicial, meu tema, minhas quebras de ato, minha “história B”, etc, a idéia é sempre respeitar os pontos e onde eles se encaixam na Outline.
  • E lá vai mais uma dica, procure sempre pensar em dez maneiras de preencher cada ponto da Outline, descarte todas e use a solução de número 11, procure sempre algo inédito e criativo.
O próximo passo é transformar a sua Outline em um texto de cinco à dez páginas com a história completa mas sem diálogos, este é o ARGUMENTO mas isso fica para o próximo artigo.
Quem chegou até aqui, faço mais uma vez o convite de visitarem o site oficial do Thiago Fogaça, só clicar e aproveitar várias dicas de Roteiro. E convido vocês também à lerem o Lost Kids e identificar como eu encaixei a história na estrutura acima, só clicar na imagem.
Fonte: Real Nerd

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