População de Pontal do Araguaia protesta contra danos ambientais em projeto de aterro sanitário regional a ser construído na cidade
Meio ambiente
João Rocha
A empresa Clean Master iniciou a construção de um aterro sanitário às margens da Rodovia MT-100 a 20 km de Torixoréu (MT). A instalação do empreendimento, no entanto, se tornou problema para os produtores rurais, que temem possíveis impactos ambientais e econômicos nas propriedades em seu entorno.
| Vista aérea da área desmatada de 62 hectares de vegetação onde será
instalado o aterro sanitário que atender oito municípios em torno de Pontal do Araguaia - Imagem arquivo. |
O
motivo pelo qual a empresa Clean Master iniciou a construção de um aterro
sanitário em Pontal do Araguaia é devido às exigências estabelecidas
pelo novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020), que
determina o encerramento dos lixões e a destinação ambientalmente correta dos
resíduos sólidos urbanos.
Exigência
do aterro sanitário
Segundo
levantamento feito em 2024 pelo Ministério Público do Estado do Mato
Grosso, 52% dos municípios naquele ano operavam em sistema de lixões, enquanto
48% deles realizavam a disposição correta dos resíduos em aterros
sanitários.
Visando
acelerar esse processo o Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) iniciou, no
ano passado, uma força tarefa para auxiliar os municípios no cumprimento da
legislação.
A
iniciativa foi dividida em duas frentes, uma voltada aos municípios
atendidos pelo Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Econômico, Social e
Ambiental do Portal do Araguaia (Cidesapa) e outra destinada aos integrantes do
Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Econômico e Social Vale do Rio
Cuiabá (Cides-VRC).
Projeto
Araguaia deverá atender oito municípios
O
Cidesapa é o consorcio que a empresa Clean Master pretende atender. Atualmente,
ele é formado pelos municípios de Araguaiana, Barra do Garças, General
Carneiro, Novo São Joaquim, Pontal do Araguaia, Ponte Branca, Ribeirãozinho e
Torixoréu.
Os
municípios que pretenderem utilizar o aterro sanitário terão que pagar uma
tarifa de serviço, geralmente calculada com base na quantidade de resíduos
destinados ao local. Porém para que a empresa possa prestar o serviço será
necessário um processo licitatório com critérios previamente estabelecidos.
Segundo
a empresa, a obra deve ser concluída entre seis meses e um ano, dependendo das
condições climáticas. O projeto prevê um investimento inicial de mais de R$8
Milhões. Já os custos operacionais ao longo dos 15 anos de licença podem
superar R$ 50 milhões.
O aterro ocupará uma área total de 62 hectares, sendo 11,3 destinados ao maciço, local onde fica o lixo compactado. O empreendimento deverá receber em média de 100 toneladas por dia de resíduos sólidos domésticos. A empresa afirma que ainda não tem um prazo definido para funcionamento.
Revolta
de moradores e produtores rurais
| Moradores da cidade de Pontal do Araguaia protestam contra local de
construção do aterro sanitário - Imagem arquivo. |
O
anúncio do aterro levou moradores e produtores rurais da região a questionarem
a localização escolhida para o empreendimento. Em entrevista à Agência Focaia,
o produtor rural Adalcino Lemes, líder do movimento 'Aterro Não', afirmou
que o grupo não é contrário à construção do aterro, mas sim ao local escolhido
para sua instalação, explica.
A
equipe da Agência Focaia teve acesso ao um "Laudo Técnico Ambiental de
Avaliação de Área para Implantação de Aterro" feito pela empresa Meta
Engenharia e Soluções Ambientais. No laudo, a empresa concluiu que, baseado na
legislação ambiental, a área escolhida para a implantação do aterro sanitário,
às margens da MT-100, em Pontal do Araguaia, não reúne condições adequadas para
receber o empreendimento.
Entre
os principais problemas apontados estão a proximidade com córregos, nascentes e
áreas de preservação permanente, além da existência de diversas moradias rurais
em um raio inferior ao permitido pela legislação. O relatório também destaca na
propriedade áreas de preservação ambientais degradadas e a ausência de Reserva
Legal regularizada.
Outro ponto levantado é a existência de uma estrada municipal utilizada diariamente por moradores e produtores rurais da região. Segundo o estudo, o tráfego constante de caminhões transportando resíduos poderia aumentar os riscos de acidentes, a geração de poeira e odores, além de provocar impactos sobre recursos hídricos utilizados pelas propriedades vizinhas. Com base nesses fatores, o laudo considera a área ambiental e socialmente inadequada para a instalação do aterro sanitário.
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| Mapa que aponta distância da construção do aterro sanitário de áreas hídricas (em azul) em terreno reservado às obras em Pontal do Araguaia - reprodução Élcio Rangel. |
O que
diz a empresa
Em
resposta aos questionamentos sobre a viabilidade ambiental do empreendimento, a
empresa informou que o projeto foi submetido ao processo de licenciamento
ambiental definido pela Sema (MT).
Segundo
a Clean Master, embora o porte do aterro, estimado em até 100 toneladas de
resíduos por dia, não exigisse a elaboração de um Estudo de Impacto Ambiental
(EIA/RIMA), ainda assim foram apresentados estudos técnicos, laudos e projetos
de construção e operação.
A
empresa afirma que o processo de licenciamento durou cerca de dois anos,
incluindo análises, vistorias e correções solicitadas pelo órgão ambiental,
antes da emissão da licença prévia.
Perguntada
sobre os protestos dos moradores, a empresa respondeu que considera as
preocupações, mas que na nova vistoria técnica realizada no local não teve
qualquer apontamento técnico durante a visita realizada pela Sema (MT).
A empresa também afirma que o projeto prevê acompanhamentos que permitem ao órgão fiscalizador verificar se existe qualquer problema de contaminação ou poluição de solo, ar ou água.
