Fontes viciadas: conformar-se ou formar

Por José Paulo Kupfer em 30/12/2014 na edição 831
Reproduzido da Revista de Jornalismo ESPM nº 11 (outubro, novembro e dezembro de 2014)

A produção, no Brasil, de um jornalismo de qualidade, aquele em que são contemplados diversos ângulos das questões, com as necessárias contextualizações, vem passando por percalços. A relação entre fontes e repórteres, pilar crucial desse jornalismo, foi afetada por vícios de comportamento que contaminam o fazer cotidiano das redações.
Todas as editorias convivem com esse problema de fundo, que conduz a coberturas desequilibradas. Elas aceitam e reforçam interpretações parciais, preferidas pelo mainstream do pensamento nas diversas áreas cobertas, quase sem abrir espaço para a diversidade de fontes e visões divergentes. Isso afeta desde a pauta até a edição de textos e imagens.
A cobertura de economia não é a única em que o fenômeno se apresenta. Nos temas de saúde, nas questões da educação e nos assuntos urbanos, por exemplo, os mesmos problemas das fontes viciadas podem ser localizados. Mas é na economia que o problema parece mais disseminado.
Levantamentos cobrindo as menções, nas editorias de economia, a fontes e instituições, nos três jornais impressos de expressão nacional – Folha de S.PauloEstado de S. Paulo eO Globo –, no período de um mês, de 2012 a 2014, dão indícios dessa concentração em determinadas fontes de informação. Conclui-se que a diversificação de fontes é baixa, ocorrendo um desequilíbrio entre as linhas de pensamento que sustentam as análises, com predominância de visões de política econômica com viés de mercado, ditas neoliberais. 
Há forte incidência de instituições e fontes de governo, bem como a participação de representantes de associações setoriais e de categorias profissionais. No caso das instituições e fontes do setor privado, a predominância é daquelas que representam bancos, consultorias econômicas e instituições de ensino de corte declaradamente neoliberal, adeptas da aplicação de políticas econômicas ortodoxas. Coincide também serem instituições apoiadas por assessorias profissionais, no relacionamento com a imprensa. 
Em 2014, por exemplo, apenas as dez instituições mais citadas responderam por metade do total de citações, confirmando a concentração de fontes. Dentre elas, 30% das menções vieram de órgãos do governo e 7%, de associações setoriais. Os demais 63%, ou seja, duas em cada três citações entre as dez mais citadas, vieram de instituições privadas representantes de bancos, consultorias e escolas de economia, todos de linha liberal. Destaques para a Fundação Getulio Vargas, do Rio de Janeiro, e a consultoria privada Tendências, que, entre as dez mais citadas, responderam por quase metade das citações.

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