Sempre na berlinda

As imagens conflitantes de D. Isabel na imprensa mostram uma sociedade dividida à época da Abolição

Augusto Mattos
1/5/2012

As mulheres abastadas deveriam transitar no espaço público com boas anfitriãs, boas esposas e boas filhas, além de manter o recato e a submissão.

Irradiando a luz da liberdade. É assim que D. Isabel é retratada numa das charges após a assinatura da Lei Imperial no 3.353, mais conhecida como Lei Áurea, devido ao seu valor para a sociedade brasileira. Esta é mais uma das inúmeras imagens da princesa veiculadas na imprensa na época, num momento em que estava em jogo a existência ou não do Terceiro Reinado. De fato, a maneira como defensores e detratores do regime retratavam a monarquia poderia determinar a sobrevivência do Império, já que seriam capazes de influenciar decisivamente os rumos tomados pela elite dirigente, bem como o próprio imaginário popular, no que se referia à capacidade da herdeira de tocar os assuntos de Estado. A imprensa, portanto, foi uma arena privilegiada tanto para atacar quanto para defender as ações de D. Isabel como regente.

Em 3 de maio de 1888, a Revista Illustrada, editada no Rio de Janeiro por Angelo Agostini, destacava que “todos compreenderam que à excelsa Princesa se devia um testemunho de apreço, pelo muito que também fez em prol dos cativos”. A união entre as aspirações populares e a atuação decisiva da regente no processo de derrubada do escravismo no Brasil é representada com entusiasmo na publicação de 5 de maio de 1888.                                                                                

A ideia de que a monarquia agia com o intuito de responder às necessidades da sociedade brasileira poderia significar a própria longevidade do regime. Portanto, a nomeação do Gabinete da Abolição, sob a liderança do conselheiro João Alfredo, no lugar do Gabinete Cotegipe – liderado por João Maurício Wanderley, o barão de Cotegipe, associado aos interesses escravocratas – marcou uma guinada política sem precedentes no Segundo Reinado em direção ao fim da escravidão. Além disso, materializou a liderança da regente no comando dos assuntos de Estado. A Illustrada não deixou por menos: o apoio inconteste de D. Isabel ao abolicionismo foi ressaltado em forma de charge, na qual os escravistas aparecem representados pelo Gabinete Cotegipe. Afinal, destituir um político influente como o barão de Cotegipe demonstrava coragem. Após realçar a Falla do Throno de 3 de maio de 1888, o semanário expressa as intenções libertadoras da regente – a responsabilidade que é jogada sobre os legisladores, sugerindo também uma ação mais incisiva do clero na questão abolicionista.

 Por outro lado, grupos republicanos procuravam desvincular o Império do abolicionismo, associando a escravidão à manutenção do regime monárquico no Brasil. Para isso, não eram poupadas críticas a D. Isabel. Em Juiz de Fora, o jornal O Pharol de 29 de maio de 1888, por exemplo, estranha as “estrondosas ovações à Regente?! Para que essas loas entoadas à atual representante da instituição monárquica? É a história quem nos diz que a Monarquia no Brasil manteve-se e prosperou à custa da escravidão dos negros”.

Mas parte da sociedade viu com bons olhos a primeira experiência efetiva de mando político da regente. Talvez por reconhecer que socialmente exigia-se muito das mulheres das classes mais abastadas. Assim como Isabel, elas deveriam saber transitar no espaço público como boas anfitriãs, boas esposas e boas filhas, além de cumprir todas as prescrições estabelecidas para o sexo feminino, como recato e submissão. Essa aceitação pode ser comprovada nas páginas do Jornal do Commércio de 5 de janeiro de 1873, que registrou que “todos respeitaram o caráter provisório da Regência e fizeram justiça à prudência, dignidade e acerto com que se houve a Princesa”.

Nada escapava ao sarcasmo de alguns setores da imprensa. O jornal O Mequetrefe publicou, em julho de 1887, uma charge em que D. Isabel agia como estadista ao mesmo tempo em que cuidava dos assuntos domésticos, dando a entender que a regente não percebia – ou não queria perceber – a trama política ao seu redor. A intenção era pôr em dúvida sua capacidade de governança. E mais: sutilmente, o jornal questionava a presença de mulheres em assuntos de âmbito público, postura bastante comum na época.

A princesa imperial sofria constantes ataques de parte da imprensa, que a retratava como submissa ao seu marido, conhecido pejorativamente como “o francês”. De forma inclemente, o jornal O Pharol afirmava, em 5 de junho de 1888, que “ela faz o que o marido quer e não o que é desejo do povo; faz mais – afronta os interesses do povo para afagar os desejos do marido”. As ácidas palavras do texto enfatizam a questão da submissão feminina. Não se faz alusão clara a questões políticas, econômicas ou sociais. O artigo busca desqualificar D. Isabel a partir de sua “frágil condição feminina”. Na mesma linha, o jornal Gazeta Nacional se transformou num dos maiores críticos da monarquia e de sua possível futura imperatriz. Em artigo datado de 4 de dezembro de 1887, volta a destacar a fragilidade feminina e a religiosidade extremada de D. Isabel.

 Nesse contexto, até José do Patrocínio (1853-1905), republicano de destaque na Corte, empolgado com as significativas ações da regente na causa abolicionista, derramava-se em elogios à herdeira, rememorando todo o tempo que “a santa, a meiga Mãe dos cativos, dava à propaganda abolicionista tudo o quanto podia: as abundâncias de piedade do seu coração. Seus filhos, os pequenos príncipes, nos seus jornaizinhos glorificam a propaganda abolicionista”. Patrocínio é um dos responsáveis pela popularização de D. Isabel como “Redentora dos escravos”, e O Mequetrefe, de maio de 1888, coloca-o aos seus pés, num misto de adoração e submissão que se traduzia no apoio ao Terceiro Reinado.

Em outra edição, de 28 de julho de l888, a Revista Illustrada apresenta o retrato da Redentora posicionado numa espécie de altar, pronto a ser cultuado. Uma família de negros livres, bem-vestidos e calçados, presta homenagem, num simbolismo que pode ser interpretado como de agradecimento ou até mesmo de devoção religiosa. Outros negros aguardam na fila. Todos carregam flores, provavelmente camélias, que simbolizaram a luta contra a escravidão. O desenho se refere ao aniversário de D. Isabel, comemorado no dia 29 de julho, o primeiro após a libertação definitiva dos cativos.

É fato que os libertos festejavam a “Redentora”. As tradições africanas de realeza embasavam o respeito a reis e rainhas, legitimando culturalmente um possível Terceiro Reinado, sob as bênçãos de D. Isabel. Para os cativos, ela seria vista como eterna soberana, pois soube enfrentar os diversos obstáculos que postergavam a Abolição. Além disso, ajudava quilombos, escravos fugitivos, estimulava jornais antiescravistas. Cercava-se, enfim, de pessoas de almas livres. Pode não ter chegado ao trono, mas, como dizia o velho Aires no romance machadiano Esaú e Jacó (1904), “toda alma livre é imperatriz”.

Augusto Mattos é doutorando e mestre em História Social pela Universidade de Brasília.

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