O jeitinho brasileiro

Jornalistas portuguesas se surpreendem com eficácia do "jeitinho brasileiro"

ALEXANDRA PRADO COELHO (TEXTO) E VERA MOUTINHO (FOTO)
Tinham-me falado do entusiasmo com que os brasileiros recebem quem vem de fora – um entusiasmo e uma simpatia que nos fazem acreditar que tudo é possível, tudo é fácil, tudo vai acontecer. Dizem “claro que sim”, aparecem, dão-nos abraços fortes, fazem planos connosco.
Mas aconselharam-me a dar algum desconto. Sim, o entusiasmo é sempre muito maior do que o que sentimos em Portugal, mas às vezes as coisas não acontecem – as combinações falham, os planos desfazem-se, nem tudo é tão fácil nem tão consequente como parecia. É o célebre “você tem que aparecer lá em casa!” dito com toda a convicção mas sem qualquer intenção de nos darem a morada (uma característica atribuída sobretudo aos cariocas).
Será talvez uma questão de linguagem. Em Portugal, pomos a cabeça de lado, mantemos alguns segundos de suspense, e dizemos “vai ser difícil” ou “acho que não vai ser possível”. No Brasil dizem-nos “sim, acho que vai dar”. E nós surpreendemo-nos. “Vai mesmo?”.
O facto é que em 18 dias que passei no Brasil, tudo o que me disseram que seria possível aconteceu. Nenhum encontro falhou, muitas das pessoas que encontrámos abriram-nos outras portas, puseram-nos em contacto com outros, todos os emails tiveram uma resposta, e todas as respostas foram positivas. Sorte? Talvez. Mas é justo que partilhe aqui esta experiência.
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Há coisas que nos exasperam (o funcionamento dos telemóveis, com os diferentes códigos que ninguém sabe exactamente quais são e a dificuldade em conseguir um cartão quando não se tem o CPF, o número fiscal brasileiro, são uma delas), mas a famosa simpatia foi, nestes 18 dias, mais do que um cartão turístico. Foi real e foi consequente.
Um exemplo: no Mato Grosso conhecemos Tobias Ferraz, repórter do canal Terra Viva da Rede Bandeirantes. Em conversa dissemos que queríamos fazer uma reportagem sobre o trânsito em São Paulo. Ele imediatamente sugeriu que visitássemos a Rádio SulAmérica Trânsito, também da Rede Bandeirantes. Disse que enviaria um email com os contactos. O email chegou no dia seguinte. A pessoa a quem ele pediu ajuda logo nos pôs em contacto com alguém da rádio que se disponibilizou para estar connosco às 7h da manhã para acompanharmos um repórter no trânsito (o simpático Stephan que hão-de conhecer numa das nossas reportagens).
Fizemos a história, e no fim a Vera Moutinho perguntou se seria possível ir no helicóptero para filmar São Paulo do ar (um projecto que tinha há semanas mas do qual já quase tinha desistido). “Sim, vamos falar com o piloto”, disse-nos Felipe Bueno, director da rádio. Daí a pouco a Vera estava ao telefone a combinar com o piloto o local de encontro e dois dias depois estava a sobrevoar São Paulo.
Pode parecer uma história banal. E é. Mas quem chega de Portugal habituado a tantas vezes ouvir logo à partida “não sei se vai ser possível”, “tem que enviar um email”, “o assunto tem que ser discutido na reunião do conselho de administração”, ou qualquer outro entrave burocrático do género, há uma alegria que se instala quando durante 18 dias se ouve “sim, vai ser possível” (o que, sejamos justos, incluiu também os portugueses que encontrámos no Brasil).
Comentava isto com uma repórter da rádio e ela dizia, sorrindo: “Damos um jeitinho”. Talvez seja o espírito do Novo Mundo. Ou talvez tenha sido apenas sorte e uma série de coincidências. Mas foi bom acreditar que as coisas podiam acontecer – e podiam ser, afinal, muito mais fáceis do que nos habituámos a imaginar. Valeu!
Fonte: Público

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