Novos tempos: O editor de maconha


Por Sergio da Motta e Albuquerque em 17/12/2013 na edição 777 do Observatório da Imprensa

Na Roma antiga, editor era o promotor de jogos sangrentos exibidos em arenas como o famoso Coliseu, na mesma cidade. A informação veio do livro Assombração, de Chuck Palahniuc (Rocco, 2007, RJ), também autor de Clube da Luta, que acabou nas telas de cinema em 1999. Como livros escritos por autores de ficção não são boas fontes de informação, resolvi buscar outra mais especializada. Encontrei a VROMA, uma comunidade acadêmica virtual norte-americana dedicada à divulgação da cultura clássica. Palahniuc estava certo: editores na antiguidade realmente programavam e promoviam jogos de gladiadores e outros espetáculos cruéis para a sociedade romana.
O significado da palavra mudou bastante com a passar da história. Editor, hoje em dia na imprensa, é o profissional responsável pelo conteúdo de publicações: ele escolhe o que vai ser publicado e prepara o material para publicação dentro do espaço editorial do jornal. Pode também chefiar editorias de diversos temas de interesse jornalístico: política, economia, lazer, tecnologia e outros. No final de 2013 surgiu uma nova e surpreendente especialidade para o profissional da edição: o editor de maconha.
New York Times (8/12) informou que o diário Denver Post, do Colorado, Estados Unidos, havia designado Ricardo Baca, de 36 anos, “ex-editor de música e entretenimento”, como editor de marijuana em novembro deste ano. O jornal contraria todas as estatísticas de queda de circulação visível em quase toda a imprensa americana. Sua circulação diária passou de 491.400 exemplares em março de 2010 a 615.315 no mesmo mês deste ano.
Na Holanda, uso tolerado
Denver Post mostrou ao mundo que o jornal impresso ainda tem muito espaço, principalmente entre o público jovem, se acreditar na inovação dos temas, e ousar abordar em profundidade e interesse temas atuais que ainda envergonham a velha imprensa tradicional. Que já tem, em grande maioria de suas publicações, posição formada e fechada sobre temas controversos: formalismo, avaliações rasas e medo de afastar leitores com assuntos polêmicos dominam as pautas enquanto a circulação dos impressos cai a cada ano nos países mais desenvolvidos do mundo ocidental.
O periódico do Colorado é um jornal sério e bem-sucedido, que nos últimos quatro anos foi premiado com o prêmio Pulitzer quatro vezes. O novo editor tem 12 anos de trabalho no Post, e já começou sua nova função. No início deste mês, ele ainda estava a selecionar, entre 70 currículos, alguém para a função de crítico de maconha. Ricardo Baca sabe que tem muita coisa pela frente:
“Ele já esteve em contato com jornalistas em outros países, a explorar como as novas leis estaduais comparam-se com as de outros países como a Holanda, onde o uso de drogas recreacionais é ilegal, mas tolerado. E ele também esteve em contato com repórteres em Washington, outro estado que legalizou o uso da cannabis, para potencialmente trabalhar com eles.”
Até seis pés
New York Times desmistificou uma visão equivocada que muitos têm da Holanda como paraíso do consumo das drogas. Seus “cafés do bagulho” são conhecidos em todo o mundo, mas na Holanda o que existe na realidade é pragmatismo e tolerância com o uso da erva: a autoridade pública simplesmente tem olhado para o outro lado nas últimas décadas para o consumo confinado da maconha. A atitude liberal das autoridades holandesas acabou por trazer um problema para o governo: o turismo dos usuários de drogas no sul do país. Políticos conservadores entraram em ação e tentaram proibir o consumo da diambapara estrangeiros, informou o diário russo RT News, da Rússia (06/06) A grita dos conservadores foi grande no país, que acabou com um consenso onde cada cidade escolhe se os estrangeiros podem ou não usar a maconha dentro de seus limites.
Daily Cronic, um diário norte-americano dedicado à causa da liberação da cannabis para uso recreativo, informou (19/07) que a Holanda enfrenta outro problema grave com relação a sua política informal sobre a maconha: como o cultivo da planta é proibido no país, traficantes criminais continuam a abastecer os famosos cafés de Amsterdam, criando uma situação onde convivem tolerância e civilidade na porta da frente das casas noturnas que vendem marijuana, e práticas criminosas na parte de trás das lojas que atendem as necessidades dos “malucos” batavos. Na realidade, o país não possuiu um sistema legal de distribuição, produção e consumo da droga. A Holanda descriminalizou o uso da maconha em 1976, e não foi muito além disso. O país não tem uma política oficial de liberação do uso da cannabis, mas sua fama de paraíso dos usuários de marijuana firmou-se no imaginário da população mundial.
As lições do caso holandês com o consumo de cannabis já foram absorvidas pelos dois estados americanos que vão começar 2014 com a maconha liberada para uso e distribuição: Colorado e Washington. Cada um deles tem um modelo diferente. O Colorado parte de uma concepção popular, civil e regionalizada para abastecimento e consumo da droga, enquanto Washington tem um planejamento mais centralizado, orientado para o mercado e organizado verticalmente, isto é, de cima para baixo. Apenas o Colorado vai permitir a plantação de até seis pés da planta para consumo pessoal. Em Washington, o cultivo continuará proibido.
Uso, compra, venda e plantio
Os dois modelos também têm muito em comum. A Reuters (07/11) informou que a posse até 28,35 gramas não está sujeita a nenhuma penalidade para usuários com mais de 21 anos de idade. A venda será legalizada em estabelecimentos comerciais especiais no Colorado. Em Washington o caminho escolhido foi seguir a prática já estabelecida e legalizada na distribuição e venda de bebidas alcoólicas, informou a agencia. Que também anotou a reação de políticos conservadores contra a liberação do uso recreativo da droga menos perigosa de todas, incluindo o álcool. Que apesar de legal, é uma das drogas mais danosas ao ser humano desde quando começou a ser usado. Mesmo assim, congressistas conservadores apontaram centenas de riscos e supostos danos provocados pela erva que muitos gostam de usar, e querem que o presidente Obama intervenha nos dois estados contra as medidas adotadas em Colorado e Washington.
Mas não precisamos ir muito longe para encontrarmos um modelo eficiente e moderno para a liberação do uso recreativo da cannabis sativa: aqui mesmo na América do Sul, o pequenino Uruguai vem dando lições de inovação e inteligência há algum tempo sobre a legalização e consumo legal da maconha.
O portal G1, da Globo (10/12), informou que o projeto de legalização completa da marijuana foi aprovado no Senado daquele país, que vai ser em abril de 2014 a primeira nação do mundo a por em prática um programa completo de legalização do uso, compra, venda e plantio da maconha para cidadãos maiores de 18 anos. As iniciativas norte-americanas limitam-se, por enquanto, a dois estados e não possuem a dimensão e o alcance nacional das novas leis do nosso pequeno vizinho do Sul.
Mudança e inovação
Os uruguaios vão poder comprar nas farmácias ou clubes específicos para os consumidores até 40 gramas de maconha (mais que os americanos). Para o plantio até seis pés da planta não será necessário registro. Quem quiser plantar mais do que isso terá que fazer parte de um cadastro nacional. Para quem acredita que a maconha é “uma porta de entrada para o mundo das drogas pesadas”, o Daily Cronic informou que na Holanda, “apenas 14% dos usuários de cannabis dizem que podem adquirir outras drogas de seus fornecedores de maconha”. Mais de 80% não podem comprar drogas perigosas com seus vendedores de marijuana. A porta de entrada não existe quando se separa o consumo e venda da cannabis do uso e comercialização ilegal de drogas pesadas.
O projeto da administração de José Mujica atende a essa necessidade de separação. O papel central do estado será alienar o narcotráfico do negócio da venda ilegal da maconha e impedir o avanço das drogas mais perigosas entre os jovens no país. Esta foi a intenção do governo ao propor o projeto desde o início: separar o consumo da maconha do abuso as drogas pesadas, como o crack, a cocaína , o ecstasy e a metanfetamina. Um órgão regulador foi criado para fiscalizar a implementação do programa e controle de possíveis excessos de qualquer parte e interferências de interesses contrariados pela nova legislação uruguaia sobre a marijuana.
Com relação ao papel da imprensa, o pequeno Denver Post, jornal do interior dos Estados Unidos, ensinou uma coisa ou duas a quem já decretou a morte da plataforma tinta-papel. Apostando em temas inovadores e atuais sem medo do conservadorismo que reina na maioria das redações dos grandes jornais, o periódico vem crescendo em circulação e atraindo público mais jovem para a leitura de jornais impressos. O jornal de Denver viaja rápido como nossos dias. Não navega as mesmas águas estagnadas que seus decadentes irmãos maiores da imprensa norte-americana.
Denver Post abriu um caminho novo para o jornalismo tradicional em crise. Novos assuntos devem ser abordados pela imprensa sem medo, preconceito ou pudor. Novas editorias precisam ser criadas para atender as demandas mais sofisticadas da sociedade atual. Pautas mais ousadas precisam ser apresentadas com coragem e sem medo da experimentação e do novo. O público mais jovem já cansou do formato tímido, conservador e repetitivo da imprensa escrita. O mundo não se resume ao que ela reporta. A sociedade mudou e a imprensa convencional dos jornalões precisa acordar para as novas realidades que surgem em nossos dias. O leitor contemporâneo anda entorpecido com a repetição envelhecida do atual modo de fazer e pensar o jornalismo tradicional. Impresso ou não, é hora de mudança e inovação.
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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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