Línguas de todo o mundo possuem uma palavra muito parecida com a portuguesa “hã?”, que usamos para assinalar rapidamente, no fogo da conversa, que não percebemos o que acabou de ser dito.
Conversation (Les Parau Parau), Paul Gauguin, 1891 DR
“Hã?” em português, “huh?” em inglês, “hein?” em
francês, “eh?”em espanhol. Estas palavras simples, curtas, que saem da
boca sem esforço, interrogando logo ali o interlocutor e pedindo-lhe para
repetir o que disse, são estranhamente parecidas. Um estudo publicado na
revista PLoS ONE mostra que existem na realidade inúmeros pequenos
vocábulos semelhantes nas línguas humanas.
Mark Dingemanse e colegas, do Instituto Max Planck de
Nijmegen (Holanda), estudaram as variantes da palavra que pronunciamos “hã?” em
dezenas de línguas de todo o mundo. E concluem que se trata de uma palavra
universal.
Ora, isso é excepcional, porque o que normalmente acontece é
que as palavras mais comuns são totalmente diferentes de uma língua para outra.
É só pensar que a palavra “cão” se diz “perro” em espanhol, “chien” em francês
e “dog” em inglês. O animal que representa é o mesmo, mas o som utilizado para
o designar parece ser, no fundo, totalmente aleatório.
Também existem outras palavras, desta vez aleatoriamente
diferentes de língua para língua, que servem o mesmo propósito que “hã?”. Por
exemplo, “como?”, “diga?, “sorry?”, “pardon?” assinalam igualmente depressa que
surgiu um hiato na comunicação oral. Mas “hã?” tem um estatuto tão modesto que
por vezes nem é assinalada nos dicionários… Será que é mesmo uma palavra?
Os cientistas analisaram 195 gravações em dez línguas,
feitas por eles no terreno um pouco por todo o mundo, de conversas em que uma
palavra do género de “hã?” era susceptível de surgir devido a uma falha de
compreensão: siwu (falada no Gana), italiano, mandarim, espanhol, cha’palla
(falada no Equador), islandês, lao (falada no Laos, Tailândia e Camboja),
holandês e murrinh-patha (uma língua aborígene da Austrália). E para terem a
certeza de que as semelhanças detectadas não dependiam dessa selecção de
línguas, também localizaram exemplos da interjeição em causa em mais 21
idiomas, entre os quais o zapoteca, húngaro, inglês, francês, japonês,
coreano, alemão, norueguês, quicongo (uma língua africana) ou russo.
Curiosamente, o português, com o seu expressivo “hã?” não faz parte desta
lista.
Seja como for, não importa quão diversas eram as línguas: em
todas elas os cientistas encontraram sistematicamente o que procuravam: algo em
forma de pergunta, parecido com “hã?”. Já agora, a sua transcrição dá qualquer
coisa como “ã?” em siwu, “?a!” em cha’palla, “a?” em mandarim, “he?” em
holandês – para citar apenas estes exemplos.
“Hã?” e as suas congéneres são tão excepcionais na sua
uniformidade que os cientistas quiseram mostrar que são palavras “a sério” – e
não apenas “ruídos” inatos, tais como os espirros ou o choro. Uma cuidada
análise fonética revelou então, explica um comunicado do Instituto Max Planck,
que elas são de facto palavras porque precisam de ser aprendidas em cada
língua. A prova disso, argumentam os autores, é que os nossos “primos” mais
próximos, os chimpanzés, não emitem nenhum som desse género, os bebés também
não usam essas interjeições e que as crianças só começam a usar bem o “hã?” ou
afins mais ou menos a partir dos cinco anos, quando já dominam as principais
estruturas gramaticais da sua língua. Para os autores, só faz sentido ter uma
palavra destas, tão especializada na clarificação da compreensão, quando já
existe um sistema de comunicação como a linguagem.
Mas por que será esta palavra tão universal, tão semelhante
em todo o lado? Porque, tal como os organismos vivos, a sua formação foi
sujeita a uma espécie de pressão evolutiva, especulam os cientistas. Segundo
eles, trata-se de uma forma linguística de “evolução convergente” – um fenómeno
mais conhecido dos biólogos da evolução e em que duas espécies distintas,
submetidas a condições ambientais semelhantes, desenvolvem traços semelhantes.
Ora, é um facto, argumentam, que os constrangimentos da comunicação humana são
os mesmos da Europa à Ásia, da Austrália às Américas, do Árctico aos mares do
Sul. Seja onde for no mundo, a pressão sobre os seres humanos no sentido de não
perderem o fio das conversas, mesmo das mais rápidas – pois isso pode ter
consequências nefastas –, é igualmente intensa.
É a primeira vez, salientam os cientistas, que é assim
observado um claro efeito de “ecologia conversacional” sobre a forma específica
de uma expressão linguística. E logo com uma palavra aparentemente tão modesta
como “hã?”, acrescentamos nós.
