por Geneton Moraes Neto

Dilma olha para a câmera e diz, em rede nacional (*) :
“Boa noite. Tenho uma boa notícia: a voz das ruas foi ouvida. Chegou aos palácios, ao Congresso, às assembleias, às câmaras, aos ministérios, às secretarias. Não vou me ocupar dos vândalos. São caso de polícia. Vou me ocupar do Brasil – que grita legitimamente por um Brasil melhor. Parecem palavras gastas, desacreditadas, inúteis, cansativas, entediantes : “um Brasil melhor”. Não são.
O que fazer depois que as ruas levantaram a voz ? – todos se perguntam. Eu digo: chegou a hora de criar o que chamarei de “Agenda Positiva de Emergência” para o país.
Que agenda é esta?  Pode ser a mais simples possível:
Estou convocando todos os partidos no Congresso para que, o mais rápido possível, tornem lei o que é desejo de tantos: a partir de agora, o orçamento para a educação será sumariamente duplicado, em todos os níveis. Eu disse: duplicado.
Fica proibida por lei uma vergonha mundial: uma professora primária não pode receber salário de R$ 1000 por mês!  Uma escola não pode funcionar caindo aos pedaços. O efeito não aparecerá daqui a um ano ou dois. Aparecerá em uma geração. Tenho certeza de que ninguém se arrependerá.
As assembleias estaduais, as câmaras municipais, o Congresso Nacional farão uma revisão drástica de seus gastos. Eu disse: drástica. Deixarão de ser cabides de emprego. A Assembleia Legislativa do Rio tem 4.300 funcionários. Pergunto: quantos são indispensáveis ? Os bilhões economizados irão automaticamente para a educação.
Vai aparecer um tecnocrata para dizer: ‘…mas as coisas são tão simples assim ! Não é fácil tirar dinheiro de um lugar para botar em outro!’. Eu digo: é, sim. Se o mecanismo não existe, que seja criado.
O número de ministérios será reduzido em dois terços a partir de segunda-feira. Ponto.
Os contratos das empreiteiras com os governos serão revisados item por item, letra por letra.
Corruptores e corruptos terão de ser expostos à execração pública e punidos como sempre mereceram – mas nunca foram.
Fica instituída a tarifa zero para o transporte público. Eu disse: tarifa zero. Hospital público é de graça. Por que o transporte não poderia ser ?  É ingenuidade perguntar?  Não!  Chega de aplicar ao transporte público a lógica privada do lucro. Quanto custará aos governos esta novidade? Bilhões de reais. Eu disse: bilhões de reais. Mas tudo é uma questão de vontade política. Quando todo mundo quer, o dinheiro aparece.
Quando ficou decidido que o Brasil seria sede da Copa, tudo foi feito “num passe de mágica”. Estádios gigantescos foram erguidos. Que venha a Copa. O Brasil espera o hexa. Mas… por que estradas, escolas, hospitais não podem ser construídos com tamanha rapidez e tamanha eficiência ?
“De graça” – aliás  – é uma força de expressão. O que a gente diz que é “de graça” na verdade é pago com o imposto tirado do salário do trabalhador. Nada mais justo do que devolver a ele em forma de serviços públicos minimamente aceitáveis.
Corrupção – esta palavra maldita – passa a ser crime inafiançável. Político ou administrador flagrado com a mão em dinheiro público – ou privado ! – não poderá jamais voltar a ocupar cargos públicos. Aos ladrões, as penas da lei. É assim em qualquer lugar que se queira civilizado. Por que não haverá de ser assim no Brasil ?
Ofereço a “Agenda Positiva de Emergência” porque a voz das ruas diz que o Brasil cansou. E eu repito:  cansou. Boa noite”.
O operador apaga as luzes do estúdio. Dilma sai por uma porta lateral. Em que estará pensando ?
———
(*) As cenas e as palavras de Dilma são, obviamente, imaginárias. Mas a vontade de que palavras assim fossem ditas parece real.  

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