O jornalismo prestaria um bom serviço se
observasse os caminhos da igualdade e democracia e não simplesmente
reproduzindo vozes de alhures, em busca de manter-se em posição de
status
Por Antonio S. Silva
A iniciativa do governo de atender grupos de pessoas da sociedade em dificuldades históricas é louvável e uma forma de promover a justiça social. Uma nação não deve pensar apenas em uma minoria que já nasceu privilegiada, com herança de famílias nobres, que se estabeleceram no Brasil usando dos recursos do país, sobretudo sua mão-de-obra barata.
Para que haja igualdade são necessárias que as condições sejam as mesmas, caso contrário seria uma disputa desumana. A educação certamente é o caminho para se buscar conhecimento para pessoas em desigualdades. Afinal, a realidade somente pode ser compreendida através da formação reflexiva e prática.
De estranhar, entretanto, que o Jornal Gazeta de Cuiabá – maior jornal do Estado de Mato Grosso, onde há muitas população indígenas, se posicionar contra a medida que beneficiará comunidades inteiras, vivendo, muitas vezes à margem desta sociedade do lucro e exploração. A tentativa de dar oportunidade aos índios, com sua formação é necessária e desejável, sob o ponto de vista democrático.
Não se trata de filantropia, como parece querer dizer. Mas uma obrigação dos brasileiros que vivem num Brasil tupiniquim.
O jornalismo prestaria um bom serviço se observasse os caminhos da igualdade e democracia e não simplesmente reproduzindo vozes de alhures, em busca de manter-se em posição de status, discursando para grupos que vivem da exploração da terra e da mão-de-obra farta, promovida pela miséria consistente.
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Editorial Gazeta – Cuiabá (14)
Mais uma bolsa assistencialista
O governo federal lançou na última semana mais uma
iniciativa assistencial, a Bolsa Permanência. Visa, basicamente, custear
a permanência de cotistas, indígenas e quilombolas ao longo do curso em
instituições federais. O programa fornece bolsa de R$ 400 para pessoas
com renda inferior a 1,5 salário mínimo e que tenham entrado na
universidade pelo sistema de cotas e R$ 900 para estudantes indígenas ou
aqueles que vivem nos quilombos.
O programa foi disponibilizado nesta
segunda-feira.Primeiramente as universidades estarão cadastrando os
pró-reitores de cada área como interlocutores entre o governo federal e
os beneficiados. A partir de então os estudantes poderão se cadastrar
para receber o auxílio através do Banco do Brasil.
Esta é mais uma iniciativa que ilustra o lado
assistencialista do governo do PT. Em sua campanha eleitoral, a
presidente Dilma Rousseff não se cansou de dizer que queria ser como uma
“mãe” para todos os brasileiros. Está exercendo esta “maternidade” em
forma de programas assistenciais que muitos já enxergam como
eleitoreiros. Na portaria oficial que a define, a Bolsa Permanência é
explicada como “um auxílio financeiro que tem por finalidade minimizar
as desigualdades sociais, etnorraciais e contribuir para permanência e
diplomação dos estudantes de graduação em situação de vulnerabilidade
socioeconômica”.
Para evitar que muitos fiquem confortavelmente
“pendurados” no dinheiro governamental (e aí leia-se dinheiro público,
fruto da contribuição de todos os cidadãos), os estudantes contemplados
não podem ultrapassar dois semestres do tempo regulamentar do curso de
graduação para se formar.
Ainda não se sabe quantos estudantes serão
beneficiados, mas o repasse do Ministério da Educação às universidades
para programas de assistência estudantil, inclusive o pagamento de
bolsas, está previsto em R$ 650 milhões este ano. Vale dizer ainda que o
Bolsa Permanência em específico, motivado pela política de cotas, pode
beneficiar também universitários estrangeiros, desde que estes também
comprovem sua situação de vulnerabilidade.
Pagar o estudante para que ele permaneça na
universidade não garante que ele saia de lá suficientemente capacitado
para enfrentar o mercado de trabalho. Mas vale a tentativa do governo
petista de dar uma oportunidade ao jovem de baixa renda e, desta
maneira, reduzir abismos que separam as classes sociais no Brasil, nem
que seja na área educacional. Pelo menos é este o discurso.
O programa tem suas fragilidades, entre elas na
fiscalização. Qualquer iniciativa que envolve o repasse de recursos e
auxílios financeiros no país, precisa ser muito bem monitorado porque é
enorme o risco que, com um “jeitinho” ou outro, seja desviado para o
bolso dos que são menos necessitados. A iniciativa, portanto, vem de
encontro ao desejo da presidente Dilma de mostrar que está cuidando dos
seus “filhos” como prometeu e que não os deixará desassistidos. Mesmo
que para isso precise pagar para que consigam o diploma.
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Antonio S. Silva é jornalista e professor universitário - Campus Araguaia.