Roberto
Boaventura da Silva Sá
Dr.
Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT
Antes de tudo, desejo a todos, em 2013, a mesma disposição para o
compartilhamento da crítica diária, elemento indispensável à democracia.
Mesmo com tal disposição, mas para não interromper o “relax” das férias,
de início, pensei escrever algo que não versasse sobre a política
contemporânea. Tratar disso é sempre “pesado”.
Assim, cheguei a construir mentalmente um artigo sobre “Lado a Lado”,
telenovela exibida pela Globo, no horário das 18h. Afinal, relevando deslizes
da trilha sonora, aquela telenovela tem se revelado uma boa produção cultural
para o gênero.
Ambientada nas primeiras décadas da República, ou seja, na virada do séc.
XIX para o XX, algumas “aulas” de história, literatura e música, destacando o
samba, surgem a cada cena, a cada diálogo. Nem mesmo detalhes de cenário,
vocábulos e expressões da época são olvidados.
Talvez o esmero dessa produção seja uma das formas de minimizar a
estupidez de tantas piriguetes e outras aberrações do último ano. Claro que já
não estamos livres de outras “m...”. Os “espiões” e fofoqueiros desse país –
que não são poucos – que o digam. Infelizmente, vivemos um tempo de desmantelo
cultural como nenhum outro país vive.
Mas só pensei em escrever sobre isso. A pauta hodierna me provocou. O
responsável pela provocação foi um artigo que o petista Tarso Genro –
governador do RS – publicou em Carta Maior (veículo do tipo porta-voz do
governo), no dia 23/12/2013.
Partindo do título “Alfred Döblin faz lembrar nosso glorioso PT e outros
tantos anos novos”, ao final do texto, Tarso anuncia – com absoluta certeza –
mais dois mandatos do PT: um com Dilma, em 2014; outro em 2018, sem identificar
com quem.
Ate aí, normal. Na democracia, todos têm o direito. Acontece que para
atingir esse ponto houve um longo percurso discursivo, cuja centralidade foi
tentar descaracterizar o STF por meio do julgamento da Ação Penal 470, vulgo
“Mensalão do PT”.
Para sustentar seu ensaio, Tarso baseou-se num enunciado de uma
entrevista concedida pelo ex-presidente do STF, Ayres Brito, que disse: “O que
estamos aqui julgando é um modo espúrio, delituoso, de fazer política...”
Logo, para o articulista e trombeteiro do PT, o que houve naquele
julgamento foi uma “judicialização da política” e não o julgamento de políticos
em si, que eventualmente tenham se desviado da “boa política”.
Por isso, para Tarso, “dois motivos básicos... manterão por muito
tempo... a Ação Penal 470 como o centro de todas as estratégias políticas da
direita, em geral, e da oposição midiática, em particular”. Para ele, o
primeiro motivo “é criar a ilusão de que é possível escrever um Brasil mais
decente e mais democrático por fora da política”. O segundo “é que esse
deslocamento poderá funcionar como uma alternativa à hegemonia do PT e da
esquerda no âmbito eleitoral...”
Logo após, Tarso expõe aos congressistas uma saída, dizendo: “Assim, a Ação
Penal 470 continuará sendo – se o Parlamento e os Partidos não reagirem com
reformas sérias que deem mais dignidade ao fazer político democrático – o
centro do debate pautado pela mídia e pela direita anti-Lula”.
Haja paciência para esse discurso de amigos de salteadores do erário.
Agora o pior é ver petistas falando em “mídia conservadora’ e “direita
anti-Lula”. Eles se acham de esquerda!!! O fato é que o regozijo de petistas é
o cultivo da ignorância, sustentada muitas vezes até com diploma universitário,
de uma camada significativa da sociedade.
Logo, o desafio para 2013, 14, 18... é suplantarmos essa ignorância. Quem
sabe um dia?