A viola e a palavra

Por Antonio Silva

Mas a viola? Serve como adereço ao imaginário social, algo que liga a melodia à lida do homem do campo. Poucos destes cantores sabem exatamente como é o trabalho duro nas áreas rurais


A música que sempre conduziu mensagens políticas para o meio social, de fato, está no limbo da cultura. No Brasil há os modismos que passam rapidamente, como se a própria sociedade resistisse à lógica da falta de sentido e importância da cultura massificada para a vida.

Neste momento, a retomada pelas mídias da música de língua inglesa restabelece a infertilidade das produções nacionais, que navegam em águas calmas, e por isso não merecem grandes atenções do timoneiro – produtores. No final, sobra o arrocha, batuques sem ritmos sem sentido ou mesmo uma mistura de tudo, que forma o nada. Por onde anda a vida popular brasileiro musicada? Haja bundas e caminhonetes!

A televisão e o rádio pré-estabelecem as produções, de maneira que os cantores são teleguiados pela visão do interesse do grande público, ou seja, do sucesso garantido, como mágica. Nem tudo se dissolve no social e fica perdido no ar, nas ondas sonoras fora do espaço terreno.

Nem tudo é ruim ou bom. Passa a não existir se o público não adere e não ganha o mundo da mediação remunerada. Infelizmente, no Brasil, o audiovisual somente prospera se houver as caixinhas para donos de emissoras, sempre em dívidas (engraçado).

“As mais pedidas” no final do dia são responsáveis por garantir as boas remunerações da gestão financeira radiofônica – perenemente. Nas TVs as agendas são negociadas com as grandes produções para um show previsível – haja topetes e estica e puxa! O mercado invade a cultura em todas as instâncias, definindo suas lógicas.

A tradicionalíssima melodia do homem do campo, o caipira raiz, se modificou ao som da bateria do Rock and Roll, a guitarra elétrica, que bate descompassada da sanfona que meramente é coadjuvante na cena.

Caipira sem campo

Mas a viola? Serve como adereço ao imaginário social, algo que liga a melodia à lida do homem do campo. Poucos destes cantores sabem exatamente como é o trabalho duro nas áreas rurais, hoje tomadas pela grande indústria mecanizada. Portanto, um lugar apenas imaginado.

Alguns grupos da MPB tentam fazer frente ao espaço político, com letras que subvertem a ordem, mas como no final parece faltar um inimigo à vista, que seja visível, diante de uma comunicação que prefere tornar tudo massivo, ao invés de elucidar as diferenças. Seria uma espécie de revolucionar, mas dentro da ordem, da palavra e do consenso midiático guiado.

Outro caminho é o do discurso conformista, como vem apregoando o irrequieto Lobão, que de enfrentador prefere a ordem que facilita a inserção. As portas se abrem, nos lugares que estavam fechadas. Uma boa estratégia. A preferência pela afirmação de que “o mundo é do mercado, do capital. Chega de insubordinações”. Um passo para se tornar um articulista de importante revista de prestígio das elites sociais.

No final, falta política, democracia para o uso das expressões culturais e sobra resistência de uma sociedade, que se faz massa para ser improdutiva de sentido. Uma negação à evolução de um país que, com censura da palavra, adere ao mesmo todos os dias, cujos locutores são os porta-vozes da mesma informação – um falar para dizer o mesmo.

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Antonio Silva é Jornalista e professor da UFMT - Campus Araguaia.

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