Por MARCOS BAGNO  

hipercorreção é um interessante fenômeno sociolinguistico que se observa quando um(a) falante ou uma comunidade de falantes, ao tentar se aproximar de um padrão ideal imaginário de língua “boa”, acaba “acertando demais” e se desviando tanto da sua própria gramática intuitiva quanto da gramática normativa. Por isso é uma hiper- (do grego hyper, correspondente ao latim super-, isto é, “sobre; acima de; demais; para além de; excessivo” etc.) -correção, uma correção excessiva, exagerada que acaba resvalando, a contragosto, no erro puro e simples.
Os estudos sociolinguísticos têm demonstrado que a hipercorreção é filha dainsegurança linguística. Pressionados pelas cobranças sociais e culturais, sobretudo as pressões exercidas pela instituição escolar, mas não só por ela, e desconhecendo as formas realmente codificadas na tradição normativa de sua língua, muitos falantes acabam extrapolando certas regras e aplicando-as indevidamente ou então abusando de certas "muletas" textuais supostamente mais "sofisticadas".
Desse modo, reconhecendo em seus próprios hábitos linguísticos formas que sofrem estigmatização por parte dos mais letrados e, para reagir a essa estigmatização, se apoderando de formas linguísticas que não pertencem à sua variedade específica, muitas pessoas passam a empregar essas formas “importadas” com maior frequência até que os falantes das camadas médias altas e altas. E, nesse aumento de frequência de uso, aplicam a regra recém-adquirida em contextos onde ela não se aplicaria, nem segundo a gramática normativa nem segundo a gramática da variedade de maior prestígio.
Um primeiro princípio parece governar essa extrapolação dos usos:


É esse princípio que temos visto em ação nos principais casos de hipercorreção que tenho discutido aqui nas últimas semanas, principalmente na produção de textos escritos mais monitorados. Esse princípio age, portanto, de forma ainda mais intensa na relação imaginária entre língua falada e língua escrita, em que a escrita é tomada como um universo homogêneo, sempre sinônima de maior monitoramento, de maior “sofisticação”, numa clara mitificação da escrita que não tem nada a contribuir para uma boa educação linguística.
Convém alertar também que essas formas hipercorretas são empregadas não só pelos falantes de camadas médias baixas ou com letramento insuficiente e escasso domínio dos gêneros escritos mais monitorados: as pessoas mais letradas também optam com muita frequência pelas formas mais distantes do português brasileiro mais geral e usam obsessivamente aquelas formas menos espontâneas, mais conservadoras. Um bom exemplo é a alta frequência de emprego dos demonstrativos este/esta/estes/estas, quando não seu uso exclusivo (embora já saibamos que esses demonstrativos estão praticamente extintos da gramática intuitiva do falante brasileiro), de mesóclises e do pretérito mais-que-perfeito composto com o auxiliar haver (“O Brasil havia participado das negociações”) em lugar do velho, bom e saudável ter. Trata-se do fenômeno de “preservação da imagem”, que consiste em evitar atrair para si o estigma da sociedade.
Assim, podemos também enunciar um 2o princípio da hipercorreção, presente na atividade linguística de falantes mais letrados (incluindo os linguistas que defendem o português brasileiro, mas enunciam essa defesa muitas vezes numa norma-padrão anacrônica, lisboeta do século XIX...):
 

*PB: português brasileiro

 
Em nosso trabalho de educação linguística, devemos conscientizar os nossos aprendizes de que é preciso abandonar a secular superstição de que escrever é sempre sinômino de “escrever difícil” — a escrita é tão heterogênea quanto a fala, apresenta variação e se realiza em gêneros discursivos que têm suas próprias convenções, sua própria “linguagem”, por assim dizer.
É perfeitamente possível escrever um texto, mesmo de gênero que exija maior monitoramento estilísitco, usando palavras simples, construções sintáticas habituais, formas já perfeitamente incorporadas ao falar urbano de prestígio etc. Uma escrita elegante e agradável de ler não precisa de jeito nenhum ser hermética, rococó e empolada.
Fonte: e-Proinfo

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