Por Alberto Dines em 23/07/2013 na edição 75


A simpatia, humanidade e despojamento que se irradiam de Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, não impedirão que junto com a empolgação religiosa/espiritual propiciada pela sua visita ao Brasil aflore sem constrangimentos a esquecida relação Igreja-Estado.
A formidável preparação para a visita pontifícia ao Rio de Janeiro e ao santuário de Aparecida – inclusive na esfera midiática – deverá carrear ganhos efetivos ao catolicismo jovem, sobretudo latino-americano. Como contrapartida, é justo esperar que o debate sobre laicismo e teocracia, discutido enfaticamente quando se trata da derrubada do presidente Mohamed Morsi no Egito, seja capaz de transferir-se para a notória supremacia do catolicismo no Estado brasileiro.
As aberrantes atitudes do pastor-deputado Marco Feliciano na condição de presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados retiraram da questão religiosa a blindagem de assunto-tabu, porém a conduziram para uma esfera banalizada, próxima da galhofa.
Um fanático religioso, racista, no estilo do Ku Klux Kan, não pode presidir uma Comissão de Direitos Humanos, a não ser numa sátira. Os traços caricaturais do personagem impediram que se examinasse com a necessária seriedade o caráter dúbio do nosso laicismo e a fragilidade do conceito de isonomia embutido em nossa democracia.
Pode parecer injusto que a presença de uma figura tão calorosa e humana como o papa Francisco seja a deflagradora de uma discussão sobre a fabulosa soma de poderes, privilégios, facilidades e recursos públicos disponibilizados pelas autoridades para garantir uma celebração como a 28ª Jornada Mundial da Juventude. Impossível, porém, escapar deste dilema: ou o Estado é efetivamente equidistante em matéria de crenças e descrenças ou terá que abdicar da pretensão de se apresentar como democrático.
Nem as lideranças nem as massas de evangélicos pentecostais protestarão contra as vantagens e primazias oferecidas aos católicos. Vão preferir compensações, se não em espécie, pelo menos em ganhos políticos. Tal como fizeram em novembro de 2008 depois da formalização da calamitosa e semiclandestina Concordata entre o Brasil e a Santa Sé, assinada pelo ex-presidente Lula em Roma e assistida pela então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff [ver remissões abaixo].
E, assim, alternando favores às duas maiores confissões religiosas, criou-se uma teocracia tipo gangorra, binária e disfarçada, igualmente injusta, duplamente perniciosa.

Onde a mídia aceita o papel de acólito
A grande imprensa dita nacional e o seu escalão regional há semanas empenham-se em criar um clima de vibração religiosa. Verdadeira torcida da fé. Substituta dos sinos na convocação de fieis, a mídia badalou ao máximo a visita pontifícia e a Jornada Mundial da Juventude.
Uma imprensa até então asfixiada pela falta de papel não poupou espaço para convocar as multidões no velho diapasão tão eficaz em Copas do Mundo e eventos populares.
Nenhum jornal ou revista deu atenção às questões mais inconfortáveis: não se apresentou o montante do dinheiro público gasto no evento; não se ousou discutir a pertinência dos dois dias e meio de feriados no município do Rio para permitir a movimentação dos peregrinos; ninguém lembrou a Concordata com o Vaticano travada no Supremo Tribunal Federal; está em suspenso a questão do ensino religioso nas escolas públicas com a disseminação das doutrinas criacionistas; embora ilegal mantém-se a pratica de alugar para cultos horários nobres em emissoras de TV aberta e novas concessões de radiodifusão são distribuídas a sacerdotes, seitas e congregações.
Esta não é uma pauta antirreligiosa, ao contrário, é uma garantia do pluralismo. Mas no Brasil, imprensa e pluralismo não se atraem.

Ninguém ouviu o estalo do Vieira
Francisco é o primeiro papa jesuíta: com tantos especialistas em ciência das religiões na mídia, não apareceu um estudo sobre a história da Companhia de Jesus, seu papel na colonização e na formação da sociedade colonial. Ao personagem mais fascinante do jesuitismo brasileiro, o português Antonio Vieira, não se dedicou uma linha. O defensor dos índios, inspirado sermonista, “imperador da língua portuguesa”, militante da Restauração, estadista visionário, ícone do ecumenismo e adversário incansável da Inquisição (ele próprio encarcerado e processado) encarna alguns atributos que servem de matriz ao Paradigma Francisco. Não foi lembrado. E dificilmente será.
Nossa imprensa não tem competência para assumir-se como baluarte da Igreja. É apenas uma igrejinha.


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