PROTESTOS URBANOS: Eles são todos nós

Por Luciano Martins Costa em 17/06/2013 na edição 750
A revista Época tenta decifrar o movimento que toma as ruas de algumas cidades brasileiras com a reivindicação do transporte gratuito. “Quem são eles?”, pergunta o título na capa. No interior da revista, a reportagem fala de tudo, mas não entrega o que promete: textos e imagens repetem parte dos fatos relatados pelos jornais ao longo da semana e apresentam perfis variados de ativistas entrevistados durante as passeatas. Não há o rigor de uma pesquisa, um quadro esclarecendo dados demográficos dos participantes, nem mesmo um texto explicando quem são os líderes do movimento.
Se a reportagem de Época tem um mérito, ele está presente num rodapé de página dupla, em dois gráficos que mostram o custo do transporte público em São Paulo e no Rio de Janeiro, em comparação com outras metrópoles pelo mundo afora, bem como o peso comparativo desse custo sobre os salários médios dos brasileiros.
Mas até nesse quesito faltam dados importantes, como a porcentagem dos usuários de ônibus que têm vale transporte pago pelo empregador, os que pagam as passagens com desconto e os que arcam com a tarifa plena com seus próprios recursos diretos.
Provavelmente não é apenas por falta de interesse ou capacidade de investigação que a revista (onde supostamente repórteres e editores têm uma semana inteira para refletir sobre os dados disponíveis) não consegue traçar um cenário minimamente satisfatório de uma situação que preocupa grande número de seus leitores.
O texto manifesta três intenções muito claras: demonstrar que a maioria dos ativistas é formada por jovens universitários de classe média (não a classe emergente, mas aquela que tem uma renda mais elevada) e destacar a participação de militantes de partidos esquerdistas de pouca expressão eleitoral. A terceira intenção é mostrar que o aumento de 20 centavos no preço das passagens não pode ser a causa dos protestos.
Essa análise é baseada no fato de que a nova tarifa ficou abaixo da inflação no período e que há outros objetivos, ainda que obscuros, a levar manifestantes para as ruas. Ao conectar os dados numéricos sobre inflação e tarifa a técnicas de guerrilha supostamente usada nas passeatas e encerrar o parágrafo com declaração de um suposto integrante de grupo anarco-punk, a revista tenta demonizar todo o movimento.
O mal-estar difuso
Interessante que a revista Época precisou de seis jornalistas e pelo menos um editor para condensar e repetir informações e opiniões que já haviam sido publicadas pelos jornais ao longo da semana. Textos mais interessantes haviam sido ofertados pela Folha de S.Paulo,O Estado de S. Paulo e o Globo no sábado (15/6) e no domingo.
A diversidade dos manifestantes era clara, por exemplo, na reportagem da Folha intitulada “Ato contra tarifa une punks a ativistas do ‘paz e amor’”. O Globo já havia dado uma ideia dessa diversidade presente nas passeatas ao entrevistar uma das coordenadoras do movimento, uma jovem universitária que trabalha como garçonete. O título dessa reportagem do jornal carioca responde melhor à questão que a revista Época propõe mas não resolve: “Podemos ser qualquer pessoa”, diz a jovem.
De fato, a principal característica do movimento que sacode o marasmo deste Brasil que encontrou o caminho do bem-estar econômico é o fato de que ele representa a soma de todas as angústias e a sensação generalizada de incompletude provocada pela sociedade contemporânea. Se há um princípio gerador dos descontentamentos, ele pode ser identificado no esgotamento da democracia representativa como forma de organização política da sociedade.
Essa sensação engloba desde a feminista madura que participou das barricadas de 1968 até o jovem esquerdista que imagina estar produzindo uma revolução ao ver aberto o caminho para seu impulso de rebeldia – que tanto pode nascer de uma profunda consciência de cidadania como pode ser alimentado pelo furor de seus hormônios.
O problema é que entre eles e a Polícia Militar podem estar postados militantes de partidos inexpressivos que precisam exibir suas bandeiras às câmeras da mídia – e os saudosistas da ditadura militar que encontraram um abrigo na secretaria particular do governador Geraldo Alckmin, de onde podem planejar intervenções explosivas em meio à multidão. Não se trata de uma metáfora, mas de uma possibilidade real.
Na manifestação planejada para a tarde de segunda-feira (17/6) em São Paulo, o entendimento entre autoridades e líderes do movimento, que tira das ruas a tropa de choque, pode reduzir os riscos de violência, mas eles não deixam de existir.
Sentimentos difusos produzem as manifestações, mas interesses objetivos e concretos podem se apropriar delas. Ainda estamos lidando com o mal-estar na civilização, as instituições do sistema político e econômico não são capazes de responder às demandas da cidadania e essa simples verdade daria uma resposta mais completa à pergunta da revista Época: “Quem são eles?”
– Eles são todos nós.

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