Intelectuais e a rua

Por Antonio S. Silva

Na América Latina o Brasil vai se mostrando um país mais inserido nas lógicas do mercado internacional não produtivo, com amplo reflexo na economia interna, como se vê na dificuldade de regular a inflação. Se realmente os argumentos não são contundentes faltam ao governo usar procedimento bem simples: a comunicação

Os intelectuais brasileiros, em grande parte, inicia a segunda-feira apregoando o conservadorismo dos movimentos sociais, que conduzidos pelas mídias visam desestabilizar o governo de Dilma Rousseff e do PT Lulista. Razoável a observação, pois há diferentes grupos de ideologia nas ruas, cada qual com o seu segmento político. Natural.

Cada segmento político joga com suas armas para atingir seus adversários. Neste momento a oposição aproveita para criar um sentimento contra o Palácio do Planalto com vistas às eleições de 2014. No entanto, não se podem fechar os olhos para uma realidade: na batalha econômica em favor da sociedade, o atual governo acena vigorosamente para o desenvolvimentismo, em detrimento dos anseios sociais.

Um país cuja representação gere satisfação nos representados possivelmente não carece de milhares de pessoas em protesto, com vigor. O aumento do preço das passagens dos ônibus do transporte urbano se tornou uma humilhação para aqueles que sabem ser uma concessão pública, da qual a população paga o ônus perenemente. O que é mais importante, as prefeituras, muitas delas, são de governo petista ou de aliados do governo.

Há um excesso de terceirização no Brasil neste instante, a começar dos aeroportos, que ao invés das melhorias divulgadas, infelizmente está longe desta realidade. Um professor amigo que permanentemente faz uso de viagens aéreas constatou que depois da substituição do serviço público pelo privado a situação piorou consideravelmente.

Outros pontos importantes. A regulamentação das mídias, o que resultou no debate que envolveu grande número de pessoas da área – boicotado pelas empresas de comunicação? Quais motivos levaram a isenção de impostos a grande mídia brasileira?

Na América Latina o Brasil vai se mostrando um país mais inserido nas lógicas do mercado internacional não produtivo, com amplo reflexo na economia interna, como se vê na dificuldade de regular a inflação. Se realmente os argumentos não são contundentes faltam ao governo usar procedimento bem simples: a comunicação.

O movimento nas ruas possivelmente não extrapola as reivindicações mais elementares: o respeito à dignidade social, que envolve inclusive a classe média e, sobretudo os excluídos de um sistema econômico em favor da concentração de renda e felicidade de poucos – ainda um país dos altos rendimentos bancários. A direita brasileira esteve sempre à frente desta proposta, com uma relação tênue com partidos que se dizem de centro, como é o caso do PSDB, PMDB, PPS.

Um governo que se posiciona de esquerda (voltado para o social) deve demonstrar cabalmente seu lugar e seus argumentos.

A grande mídia brasileira e seus comentadores respondem a uma ordem, qual seja, daquilo que gera mais segurança e resultados financeiros. Uma grande empresa não vive sem lucros e em um sistema instável. A cada dia, paradoxalmente, se vê mais publicidade do atual governo nos tradicionais veículos, os mesmos que expõe negativamente a imagem da presidência e se reconhece sua ideologia. Algo está precisando de ajustes, as ruas sabem disso.

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Antonio S. Silva é professor da UFMT, Campus Araguaia.

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